Muletas para pobres, burcas, ciganos e as ficções que engolimos. Crónica de Margarida Davim
Ele parece velho. As costas curvadas, a barriga protuberante, as calças beges, o casaco azul-escuro de malha clássico. O jeito pausado e definitivo de falar. Não fossem as marcas do acne ainda recente e os olhos azuis quase infantis no rosto muito redondo e nada diria que tem apenas 25 anos. Conheci-o em Curitiba, onde me serviu de guia para a empresa turística onde trabalha desde os 14 anos, um emprego infantil que a lei brasileira permite ao abrigo dos “estágios mirins”, que obrigam a que os menores tenham bom aproveitamento escolar e horários compatíveis com as atividades letivas para poderem desempenhar funções administrativas remuneradas e com descontos. Filho da classe trabalhadora, furou a vida com o método irrepreensível com que regista todas as atividades do dia e as notas das reuniões no seu Moleskine preto e o ímpeto de trabalho que o fez não ter fins de semana nem folgas durante um ano e meio seguido.
O esforço compensou. Hoje tem um cargo de gestão na empresa, está na maçonaria, trata com familiaridade os funcionários do governo estadual e da prefeitura e viaja muito para a Europa em trabalho. Não é estranho que acredite no mérito, porque a sua história é feita de um suor que está a dar frutos. E, claro, tornou-se um jovem conservador de direita, que classifica o PT de Lula como um partido de extrema-esquerda. De extrema-esquerda?, interrogo-o, pedindo-lhe que me aponte uma política do Presidente do Brasil que tenha posto em causa o sistema capitalista, a democracia representativa ou a livre iniciativa de mercado. Sempre muito definitivo, desta vez hesita, para depois me falar dos “programas sociais” que são, no seu entender, “muletas para pobres”.
Para este rapaz vindo da classe trabalhadora, os apoios dados pelos programas para a........
