Gronelândia nas ruas da Dinamarca
Estando parte do meu tempo na Dinamarca e no meio da distopia trumpista, em que a lei da força e o imperialismo voltam a aparecer como dominantes e rasgando todos os pressupostos e práticas do direito internacional, tive curiosidade de ir perguntando a vários dinamarqueses que fui encontrando, em lojas, nos transportes ou a colegas de trabalho, como são aqui sentidas e vistas as ameaças de Trump e a sua alegada pretensão de comprar, invadir ou ocupar a Gronelândia.
Esta minha curiosidade advém da consciência que tenho de que, em tempos de desinformação, sabemos sempre menos do que é reportado, e da vontade de perceber, num país em que os níveis de felicidade são globalmente reconhecidos, qual o impacto destas notícias nas pessoas que estão longe da decisão ou do acesso aos meios de comunicação. É um exercício de proximidade e de compreensão da complexidade de tudo isto.
Encontrei alguma unanimidade no repúdio pelas posições de Trump, mas sobretudo uma enorme ambiguidade nos sentimentos.
Em primeiro lugar, há uma inquietação partilhada, que é comum à que sentimos todos. A inquietação de percebermos que a paz que a Europa Ocidental conhece há 80 anos está ameaçada, de sentirmos que nada disto faz sentido, que não sabemos se estamos preparados para lidar com estes fanáticos inimigos da democracia e do Estado de direito. Na Dinamarca, há qualidade de vida e felicidade. Recuam dois anos e ninguém sequer pensaria que haveria uma possibilidade de isto estar a acontecer. Seria tema para uma série televisiva e não para decisões que obrigam a equacionar se o serviço militar deve voltar a ser obrigatório ou onde se vai cortar para aumentar a despesa em defesa e segurança. Até aqui, sentimentos........
