A Natureza nunca se engana
Em março de 2025, pouco tempo após a depressão Martinho, numa caminhada pela serra de Sintra, onde terão caído cerca de cem mil árvores, perante um cenário dantesco, a Ana disse-me, simplesmente, isto: “A Natureza nunca se engana.” Depois do choque provocado pela devastação que tinha diante dos olhos, aquela afirmação transportou-me para outra dimensão da tragédia, mais profunda e mais verdadeira, que acabara de testemunhar.
Habituámo-nos a olhar para a Natureza como se ela existisse para nos servir sem custos. Quando uma cheia invade uma cidade, dizemos que a água foi cruel. Quando uma tempestade derruba o pinhal de Leiria, afirmamos que a Natureza enlouqueceu. Quando um incêndio destrói milhares de hectares, falamos de desastre. Mas a Natureza não conhece crueldade, nem bondade, nem erro. Não pune, não recompensa, não faz justiça. A Natureza simplesmente é natural e não antropocêntrica. Somos nós que interpretamos os fenómenos naturais à luz dos nossos interesses, das nossas necessidades e dos nossos medos. Chamamos catástrofe àquilo que é apenas a manifestação dos processos que moldam a Terra há milhões de anos. O vento não sabe que existe uma estrada ou um parque industrial. O rio........
