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Tânia Laranjo, a Proteção Civil de Portugal

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14.02.2026

Dentro de um helicóptero, numa lancha de fuzileiros, ou com a água até ao joelhos, Tânia Laranjo é a proteção civil que este país precisa (ou que Portugal merece). Durante as depressões Leonardo e Marta, a repórter da CMTV bateu Marcelo Rebelo de Sousa aos pontos na quilometragem e alcance do seu exercício, fazendo directos e directas pela região centro e sul do país, vendo as marés a subir e a esperança a descer, enquanto a uma depressão se seguia uma tempestade e nova emergência nacional, em suma, uma batalha atrás de outra batalha, como se tudo isto fosse um Somos Portugal do estado de calamidade. Em 2025 tivemos o apagão, em 2026 o afogão.

Tânia Laranjo em direto de Leiria testemunha a subida do rio Lis e antecipa riscos no Mondego, Vouga, Águeda, Tejo e Sorraia. Seria uma noite calma para a repórter da CMTV, piores dias viriam.

À semelhança do que tinha sucedido na noite anterior, o Presidente da República, Marcelo Rebelo De Sousa, entra em directo de Ourém para a CMTV, mas a emissão vai abaixo, um prenúncio para os dias que se iriam seguir. Um a zero para Tânia Laranjo.

Enquanto Tânia Laranjo faz as noitadas CMTV, a filha Francisca Laranjo faz as manhãs, neste caso em directo de Leiria, onde a escola D. Dinis está encerrada. A jovem repórter demora uma eternidade a informar-nos sobre o nome da escola em questão, sabemos que a CMTV prefere sempre a generalidade da informação em detrimento da informação em concreto.

A CMTV entra com o Presidente da República em directo de Pedrógão Grande, recordando a resiliência dos habitantes desta região do país durante os incêndios de 2017 e 2018. Marcelo aproveitou a semana antes da segunda volta presidencial para fazer uma última digressão pelo país, as tempestades foram uma espécie de desculpa e coincidência, mas o certo é que, como eleitores, voltámos a ter saudades do presidente dos afectos.

Marcelo entra em directo de Soure, pede às populações para manter a serenidade cívica, tenta passar a bola à Proteção Civil, mas a Proteção Civil não agarrou. Ainda ecoa na sala a frase que o Presidente largou em Pedrógão, sobre o facto de os países bálticos estarem mais preparados para o risco que Portugal, “nós não estamos nessa onda”. Portugal ainda está a aprender a flutuar, quanto mais saber nadar ou surfar esta onda.

Tânia Laranjo regressa à emissão CMTV com uma reportagem em directo de Vieira de Leiria, fala com alguém que nunca é apresentado e só aparece em vivo no final da peça. A CMTV diz que está perto dos portugueses, o que é verdade, mas para a CMTV os portugueses são uma abstração genérica, uma massa indistinta de pessoas sem nome, é o populismo levado ao extremo, não admira que Marcelo diga que os portugueses não estão nesta onda.

A depressão Leonardo aproxima-se de Portugal continental, Tânia Laranjo vai ter uma noite daquelas. Às onze da noite está em directo de Montemor-o-Velho vestida com uma gabardine preta e capuz forrado, às duas da manhã estará em Alenquer, a 200 km de distância, não percebi como é que, numa noite destas, ela se deslocou tanto para sul, a verdade é que ficou até de madrugada a garantir que o rio Alenquer não galgava as suas margens.

Francisca Laranjo entra em directo de Gibraltar, Torres Vedras, para a CMTV com um senhor que tem uma cave alagada e prejuízos avultados. Francisca diz que as imagens valem por mil palavras, mas é de noite e chove copiosamente, não se vê um palmo à frente do nariz.

Portugal dorme, Marcelo dorme, Tânia Laranjo está acordada em Alenquer a fazer o papel ingrato de guarda-nocturno da nação, assegurando que “a meteorologia tem razão, chove muito e está mais vento”, mas apesar da “situação preocupante, está tudo controlado”. A emissão da CMTV sai de Tânia Laranjo para a filha Francisca, em Torres Vedras, mas está tanto vento que por momentos imaginei que a filha ainda iria voar até à mãe em Alenquer.

Tânia Laranjo ficou a noite toda em Alenquer, e voltou a entrar sem informações adicionais. Não há nada a adicionar excepto a percepção de que há sempre qualquer coisa que pode acontecer ou a vir a ser adicionada.

Marcelo tenta recuperar o tempo perdido e entra em directo de Alcácer do Sal. Diz que “é noctívago” e que “esteve a ver tudo” ontem à noite. “Tudo” só pode ser a Tânia Laranjo a mamar 200 quilómetros e tal numa noite, mais nada se passou de relevante na televisão nessa noite.

Tânia Laranjo entra em directo de Tancos já com nova indumentária. O pico da subida do Tejo será dali a duas horas. Começa a chover, “é o dilúvio”, ela resiste, esqueçam os bálticos, não há mulher mais preparada para o risco que a Tânia.

Tânia Laranjo já está em Vila Nova da Barquinha, onde constata que há um parque debaixo de água. Fala com senhora Maria José, que saiu a tempo de sua casa e agora vai dormir para casa da filha ao Entroncamento. Enquanto o primeiro-ministro Luís Montenegro fala ao país, Tânia Laranjo segue para Torres Novas, onde “as pessoas já deixaram as partes baixas”. Às 21h00, a repórter da CMTV segue para Barquinha, e uma hora depois está finalmente em Constância, sempre com a sua muleta, o voluntarioso operador de câmara Afonso Silva. Repetem-se os directos de Constância (inúmeras vezes referida como “Constança”) pela meia noite, uma e duas da manhã de sexta-feira.

Marcelo chega a Abrantes com Montenegro, mas o combate está perdido: às 14h20, Tânia Laranjo estará dentro de uma lancha de fuzileiros no Tejo, saiu de Barquinha em direção a Constância, e prepara-se para enfrentar a tempestade Marta. Nem o presidente Marcelo consegue competir com Tânia Laranjo, só ela pode competir com ela própria. Dois dias depois, a repórter estava a fazer uma reportagem dentro de um helicóptero militar, com uma vista privilegiada e sobranceira sobre os estragos da depressão Marta nas margens do Tejo. Guardei na memória o seu desabafo para com um dos fuzileiros: “Não nasci para militar, embora seja filha de militar”. Filha de militar e filha da nação.


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