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28 de Maio: A Operação «Paialvo-Tomar»

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28.05.2026

Recentemente, quando discorria os olhos sobre alguns dos comentários que os leitores deixaram expressos sobre a última entrevista que dei ao talentoso gazetista youtuber Alexandre Sousa, ouve um que se destacou. Se a memória me não falha, dizia qualquer coisa do género: Gostei imenso da sua lição de história, nada habitual nos dias que correm, mas permita-me que o lembre que tem de ter a noção de que as gerações mais novas têm referências, ou diferentes ou inexistentes, sobre os assuntos que o Professor trata. Por exemplo, quando fala sobre o 28 de Maio, tem de explicar o que foi, porque a maioria de nós não sabe a que se refere. Confesso que esta chamada de atenção, tão sincera e objectiva, me transportou para uma realidade bem diferente da que costumo fruir na pequena bolha sociocultural em que me movimento. E o circunstancial choque fez-me lembrar outro que, em tempos de juventude, quando leccionava Mecânica Quântica na cadeira de Física Atómica e Nuclear, depois de, numa aula inteira, ter feito a demonstração da Equação de Schrödinger, com as notas de Feinman, um aluno mais velho me interpelou: Ó Engenheiro, eu percebi mais ou menos tudo o que explicou. Só não entendi o que era aquele S esticado que escreveu no fim! Dado que o comentário era uma anedota corrente no IST sobre a sinalética do operador integral, desconfiei, de início, que estava a ser praxado, mas percebi que não era o caso e que ao aluno em causa lhe faltavam mesmo noções básicas de Matemática sem as quais era impossível entender tudo o que eu, convencido idiota, procurara explicar.

Estas observações são, banhos-de-água-fria que, do alto do nosso alheamento nos obrigam a recentrar o discurso para ir de encontro aos anseios e necessidades de conhecimento das novas gerações. Por incúria de convencido vencedor, ou por prudente afastamento para maturação histórica séria, ou até por um certo retraimento devido ao compromisso político estabelecido com os seus apoiantes mais republicanos, o Estado Novo preferiu não contar, em detalhe, o que de escabroso se passara durante o despótico período da I República. Habilmente, o sistema político Abrilista, logo tratou de preencher essa lacuna, reinventando fraudulentamente a narrativa. Para vilipendiar o passado recente, que abatera, sobre o vazio de memória, permitiram que aqueles que mais assanhadamente haviam lutado contra a liberdade do País e do seu Povo – os comunistas – se assenhoreassem hegemonicamente da produção e inculcação da narrativa histórica oficial. Tal como acontecera já durante a última Guerra Civil de Espanha e a Guerra Mundial que lhe sobreveio, as instâncias ditas democráticas entenderam irrelevante e inconsequente esse domínio, quase uma prerrogativa daqueles que antigamente eram designados por «avançados» e que passaram a enformar e conduzir o chamado movimento «antifascista». Para muitos dos actuais donos do regime, que em múltiplas circunstâncias foram compagnon de route dos comunistas, era uma forma de os manter entretidos, para não chatearem no que consideravam ser o essencial (a questão económica, claro). E manifestando-se totalmente alheados, por ignorância ou erro estratégico, do que é uma pugna cultural, e da sua importância nos processos políticos, como Antonio Gramsci, aliás, prescrevera.

Como facto histórico precursor do Estado Novo, o 28 de Maio não escapou às ondas de silenciamento e às campanhas de vilipêndio e manipulação dos factos históricos que infiltraram, como metástases, o ensino oficial, público e privado. Ao ponto de fazer esquecer que o Partido Comunista Português, a secção regional da Internacional Comunista desde 1922, nada teve a ver com o golpe do 25 de Abril de 1974, levado a cabo, isso sim, pelos herdeiros políticos da facção do 28 de Maio que ficara conhecida como O Reviralho. Através de uma metamorfose gradual, que passou por largos períodos de hibernação, ao deixarem cair a questão do ultramar que tão cara era aos seus «pais e avós» políticos, as instâncias golpistas alinharam-se com as agendas mundialistas, garantindo o inestimável apoio internacional para o triunfo.

Mas o que foi o 28 de Maio? Fernando Pessoa, um seu defensor ab initio, adjectiva-o com o atributo de «confusão». Referindo-se aos executivos que foram surgindo no processo revolucionário de arrumação das várias facções e pulsões, Alfredo Pimenta chamou-lhes uma «coligação mestiça». Mas a realidade é que toda essa falta de clareza e linearidade advinha da ontogénese do próprio movimento de revolta, que não fora nem mais clara nem mais homogénea. Com efeito, com excepção dos desvairados escribas cujo fito é única e exclusivamente macular o registo histórico do regime deposto pelo golpe do 25 de Abril de 1974, atacando para isso as suas raízes de 28 de Maio, a maioria dos historiadores que tratam o tema, independentemente das suas díspares posições ideológicas, concordam em que a razão que fez juntar à mesma mesa gentes com intenções tão diferentes foi a saturação que perpassava na sociedade portuguesa pela forma despótica e corrupta como os neo-jacobinos do Partido «Democrático» vinham exercendo o seu poder.

No entanto, se quisermos ver mais fundo, temos de raspar as camadas superficiais formadas pelas narrativas de como o golpe se desenrolou e desenvolveu (e de onde sobressai, obviamente, a figura ímpar de Manuel Gomes da Costa), e pesquisar o que foi verdadeiramente a génese do embrião do movimento. E ajuda, sob o roteiro geral, ou script, do que foi o 28 de Maio, elaborar uma espécie de prequela dos acontecimentos, para perceber a dinâmica e as tensões a ele associadas. No desenrolar da acção, seremos obrigados a reconhecer que estávamos, afinal, perante várias conjuras concorrentes, partilhando, eventualmente, as condições objectivas para a revolta, mas com objectivos e metas bem diferentes.

No ano anterior ao do desenrolar da sublevação militar, 1925, haviam sido várias as tentativas putschistas para apear os «democráticos». A primeira partiu, ao que parece, de monárquicos, tirando partido de uma onda de revoltas que, no início de Março, pusera........

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