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O Matuto e os Sete Sapatos Sujos

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31.03.2026

O Matuto lembra-se bem daquele dia. O sol ardia como um colete de forças. O lago imenso e belo apareceu à direita por entre as árvores. À esquerda, a cortada para Montargil. A estrada serpenteava até ao topo, onde a vista era de cortar a respiração. A vila, com os seus velhos colados às sombras, ficou para trás. Vale Torrado… Farinha Branca… nomes que ainda hoje sabem a terra e a tempo.

Os avós do Matuto receberam-no com aquele abraço reservado ao neto urbano.

A conversa girava à volta das minudências da vida. Cá fora, o calor era um açoite. Lá dentro, havia frescura e o cheiro do pão com azeitonas, acompanhado de queijo fresco. O avô Filipe, pastor de ovelhas lanudas, ia debitando as “novidades televisivas”. A televisão era uma moda recente por aquelas bandas, logo a seguir à eletricidade — e, por esta ordem. O avô Filipe não era homem de habitar anedotas de alentejanos.

— Aparecem na televisão “igrejas” de árabes — disse ele, com o sobrolho franzido. — Lá, eles tiram os sapatos antes de entrar. Coisa estranha… por que fazem aquilo?

O Matuto, com o estatuto de neto estudado, tentou alinhavar explicações: que era tradição, respeito, humildade; que se tratava de deixar as impurezas à porta de um lugar sagrado.

O avô ouviu em silêncio, como quem........

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