Fazer da Páscoa uma passagem!
Num jantar com um amigo judeu, ele perguntou-me: «Sabes o que significa a palavra Páscoa, em hebraico Pessah»? Naturalmente disse-lhe que sim: «Passagem!» Ele especificou ainda mais: «Saltar!» Eu sempre vi e li que a Páscoa relembra que o povo de Israel fez uma passagem da escravidão do Egito à liberdade. Um memorial da passagem de Israel do Mar Vermelho a pé enxuto ou a travessia dos quarenta anos no deserto.
Acontece que ele me diz que a Páscoa comemora a salvação do povo judeu, salvo pelo sangue dos cordeiros que ungiam as ombreiras das portas. Deus foi passando pelas casas do Egito e ao passar pelas portas ungidas com o sangue do cordeiro, ‘saltava’, ‘passava’ à frente, salvando, então, quem vivesse nessa casa.
Se eu ligava a Páscoa a uma ação do povo que ‘passou o mar vermelho’, agora abriu-se uma nova perspetiva: a ação da Páscoa centra-se não tanto no povo mas numa ação de Deus que ‘passou’ à frente e salvou o povo marcado com o sangue do cordeiro.
O livro do apocalipse diz: «Estes [os cristãos] são os que vieram da grande tribulação, que lavaram as suas vestes e as branquearam no sangue do Cordeiro». Portanto, «eles estão diante do trono de Deus e servem a ele dia e noite no seu templo; e aquele que está assentado no trono os abrigará com a sua presença. Nunca mais terão fome; nunca mais terão sede. O sol não os afligirá nem nenhum calor abrasador, pois o Cordeiro que está no centro do trono os pastoreará; ele os guiará às fontes de água viva, e Deus enxugará dos seus olhos toda lágrima».
O Cordeiro, aqui, já não é um animal físico, mas o próprio Messias, que com o seu sangue marcou um povo novo. Esse Messias é Jesus! O seu sangue derramado na Páscoa ungiu um povo, salvando-o da morte! Este povo é a Igreja que vive a tensão do mal e do pecado no mundo, que espera vencer o pecado e a morte como aconteceu com o seu salvador.
Aquele jantar abriu-me uma perspetiva nova da Páscoa e da Paixão e Morte de Cristo na continuidade da ação de Deus no mundo. A nossa tentação é fazermos da Páscoa uma ação do povo, isto é, Israel ‘passa’ o mar vermelho a pé enxuto. Porém, a ação principal da Páscoa, de facto, não se encontra numa ação do povo mas de Deus. É Deus quem faz esse ‘salto’ e salva Israel da morte, tal como é Jesus Cristo quem dá esse ‘salto’, essa Páscoa, de salvar todo o homem da morte. É Cristo quem vai à frente e destrói a morte para sempre, enxugando as lágrimas de todos os olhos!
Parece que não há diferença na forma de olhar a história, mas há uma nuance muito sublime que nos deveria clarificar a forma como olhamos para a humanidade. Ao centrar a teologia numa ação do homem, isto é, ‘Israel passa o mar vermelho’ colocamos a ação no homem. E nós sabemos quais são as ações do homem. Sabemos onde nos levam as ações do homem! Sabemos que tantas vezes começamos a construir um belo edifício, mas que mais facilmente o destrói.
Celebrar a Páscoa é, então, admitir que há ações que nós, homens, não somos capazes de fazer. Há ações que apenas Deus é capaz de realizar. Não há dúvida que apoiarmo-nos na ação de Deus, que salva, transforma a ação do homem.
É bom celebrarmos a Páscoa. Comermos o cordeiro! Reunirmos a família! Visitarmos a nossa terra, as nossas raízes, as nossas gentes! É bom realizar as tradições pascais próprias de cada região. É melhor ainda acrescentar a tudo isso, um conhecimento mais aprofundado da nossa natureza e um esclarecimento do poder das ações de Deus.
