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Médio Oriente-se no caos

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06.03.2026

A maior feira de turismo do mundo, a ITB de Berlim, decorreu esta semana com alguns dos mais exuberantes stands do Médio Oriente meio vazios, a meia haste ou meio sem saber o que vender: um “stopover” bombástico a caminho da Ásia? Uma aventura estrondosa no deserto? Ou uma semana apocalíptica numa ilha artificial?

Até agora, sabemos apenas quando o copo transbordou: a 28 de fevereiro, um ataque israelo-americano contra o regime iraniano colocou uma vasta região – do Chipre ao Afeganistão, passando pelo Azerbaijão e por Omã – em estado de polvorosa; o que não sabemos é qual será o desfecho e muito menos quando. Em termos de aviação, raramente teremos assistido a um cenário em que tantos hubs globais – Dubai, Doha, Abu Dhabi – fecham simultaneamente para tudo e para todos.

Para milhões de passageiros, estes aeroportos não são sequer destino final; são apenas escalas que, de repente, se tornam verdadeiros epicentros de incerteza. Para os mais de 2 milhões de passageiros e tripulações sem saber como regressar, evacuar, repatriar ou, simplesmente, comprar um voo alternativo para voltar tornou-se uma impossibilidade. E quando todo um espaço aéreo fecha, não são apenas os aeroportos em terra que param... os céus também ficam vedados, tal como aconteceu em 2022 com o fecho do espaço aéreo russo para as companhias aéreas europeias após a invasão da Ucrânia.

As rotas para o Extremo Oriente tiveram de ser desviadas para sul, acrescentando tempo, custos e menor competitividade a essas viagens, uma vez que as companhias chinesas continuaram – e continuam – a usar a rota mais curta que atravessa a Rússia. Pior: o que se pensava serem “poucas semanas” tornou-se a nova normalidade, levando ao abandono de várias rotas diretas entre a Europa e Ásia por falta de rentabilidade. Nesta nova linha de risco que se estende de Chipre ao Afeganistão, ninguém no setor esquece que a aviação civil já pagou caro em cenários de guerra: o voo MH17 da Malaysia abatido em 2014 sobre a Ucrânia; o PS752 da Ukraine em 2020 à saída de Teerão; ou o voo 8243 da Azerbaijan em 2024, na Rússia.

A memória é demasiado recente para ser ignorada pelas seguradoras, pelos reguladores e, sobretudo, pelos gestores aéreos que assinam decisões operacionais.

Para os turistas, empresários, expatriados e famílias inteiras à espera de regressar a casa, as linhas telefónicas colapsadas e as respostas habituais não estão a ajudar: “Não há voos alternativos, não cobrimos gastos extra, não sabemos quando tudo normalizará e é preciso aguardar”. Na verdade, é o salve-se quem puder, ainda que ninguém o admita.

Neste efeito dominó de rotas suspensas, jet fuel mais caro ou ações das companhias aéreas sob pressão, há já quem veja Portugal a “beneficiar” deste caos, sempre de olhos postos no turismo, claro. Mas convém não esquecer: uma contração económica global, uma escalada no preço do combustível ou um ataque terrorista em solo europeu anulam rapidamente qualquer vantagem ilusória porque o turismo não vive em bolha; vive de paz, previsibilidade e confiança, três ativos que, neste momento, escasseiam.

Neste momento, somos muitos e em muitos setores – na aviação, na energia, nas finanças, na logística – a tentar navegar à vista. Para quem ainda está a planear aquele momento de férias em família, talvez este seja o ano de não se expor aos caprichos da geopolítica porque, geralmente, quando o céu deixa de ser um lugar previsível e seguro, não há destino paradisíaco que compense o risco do caos.


© Sapo