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A TAP e a praga da comunicação

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19.02.2026

Há vários anos que a TAP não sabe (ou não quer saber) o que é fazer uma conferência de imprensa, nem mesmo quando apresenta resultados anuais ou quando proclama o regresso aos “lucros”. Numa empresa 100% pública, paga direta e indiretamente por todos nós, os momentos decisivos da companhia têm sido tratados como reuniões de gabinete à porta fechada, com comunicados redondos, frases afinadas e zero perguntas.

O governo até pode ter mudado, mas a TAP dos comunicados previamente vistos e corrigidos pelo então ministro da tutela, Pedro Nuno Santos, continua. A verdade é que a TAP não inventou este vício… herdou-o. A TAP não é mais do que o retrato institucional do Estado que a detém e que esconde, omite, promete e incumpre. Se pudesse, o nosso Estado moldaria a forma e o conteúdo de tudo aquilo que a comunicação social publica e se os governos não conseguem fazê-lo formalmente, ensaiam essa tentação através das suas empresas públicas.

A TAP adora anunciar novos destinos, falar dos novos menus da classe executiva assinados por chefes estrelados, ou enviar fotos do mais recente avião que integrou a sua frota; a TAP gosta, sobretudo, que estes comunicados sejam copiados e colados por vários meios de comunicação facultando-lhe uma publicidade gratuita sem correr riscos, nem incorrer em gastos.

Há, de facto, assuntos que, mesmo sendo relevantes, nunca entram na narrativa oficial e que nunca fazem manchete: a desvalorização monetária persistente das milhas do programa de fidelização Miles & Go; as alterações negativas e sem aviso prévio aos upgrades; ou as campanhas promocionais “mundiais” que excluem mercados ditos “estratégicos” como Angola ou Moçambique… Felizmente para a TAP tudo isto são “não-temas” mediáticos.

No entanto, há momentos que não podem ser varridos para debaixo do tapete, em particular os que envolvem a segurança. Não sei se temos de conhecer cada incidente operacional que envolva um avião da TAP, mas quando algo tão sério como o que aconteceu na aterragem em Praga há cerca de um mês ganha dimensão pública – com vídeos de passageiros, comentários televisivos e peças jornalísticas a circular – o silêncio deixa de ser prudência e passa a ser negligência.

A reputação de segurança da TAP esteve a 30 segundos de se espatifar no chão. Desta vez, não houve vítimas, nem danos irreparáveis, não houve tragédia. Mas houve um vazio e, em comunicação, esse vazio é ocupado por outros. Se este incidente foi um teste à capacidade da TAP de comunicar em momentos de crise, o resultado é inequívoco. E na aviação, como na reputação, não há espaço para aterragens falhadas.


© Sapo