Humilhados e Ofendidos
Humilhados e Ofendidos
Há um mapa invisível do mundo que não aparece nos atlas escolares: o das pessoas que perderam tudo, inclusive o direito ao espaço mínimo de existir. Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, mais de 123 milhões de pessoas vivem hoje deslocadas à força — um número que, em apenas cinco anos, saltou de cerca de 79 milhões para uma cifra que já não cabe em comparações históricas. Esse número, por si só, é um escândalo silencioso. Mas ele se torna brutal quando ganha chão: barracas improvisadas, esgoto a céu aberto, água escassa e frequentemente imprópria, filas que começam antes do amanhecer. Em alguns campos, quarenta, cinquenta pessoas dependem de uma única latrina. Dê-se um rosto a esse número: a família sudanesa que fugiu de Cartum em 2024 enquanto milícias disputavam ruas e hospitais; a mãe ucraniana que deixou Kharkiv em 2023, levando consigo apenas documentos e duas crianças em silêncio; o jovem afegão que, após 2023, atravessou fronteiras clandestinas para não ser capturado por uma lógica de poder que transforma juventude em instrumento. No romance Humilhados e Ofendidos, de Fiódor Dostoiévski, a dor não aparece como espetáculo, mas como estrutura. Reabrindo um exemplar antigo, desses que atravessam décadas conosco, encontro sublinhada uma frase que insiste em não envelhecer: “há sofrimentos que não se podem contar”. O sublinhado, feito talvez por um leitor mais jovem, hoje soa quase como advertência. Nos campos de refugiados, há histórias que sequer chegam a ser formuladas — não por falta de palavras, mas por ausência de quem as escute com real disposição de compreender.
Há um mapa invisível do mundo que não aparece nos atlas escolares: o das pessoas que perderam tudo, inclusive o direito ao espaço mínimo de existir. Não são poucos. Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, mais de 123 milhões de pessoas vivem hoje deslocadas à força — um número que, em apenas cinco anos, saltou de cerca de 79 milhões para uma cifra que já não cabe em comparações históricas. Não se trata de crescimento demográfico. Trata-se de fracasso político acumulado.
Esse número, por si só, é um escândalo silencioso. Mas ele se torna brutal quando ganha chão: barracas improvisadas, esgoto a céu aberto, água escassa e frequentemente imprópria, filas que começam antes do amanhecer. Em alguns campos, quarenta, cinquenta pessoas dependem de uma única latrina. A privacidade não foi perdida — foi abolida. O corpo humano passa a existir em regime de exposição permanente.
Dê-se um rosto a esse número: a família sudanesa que fugiu de Cartum em 2024 enquanto milícias disputavam ruas e hospitais; a mãe ucraniana que deixou Kharkiv em 2023, levando consigo apenas documentos e duas crianças em silêncio; o jovem afegão que, após 2023, atravessou fronteiras clandestinas para não ser capturado por uma lógica de poder que transforma juventude em instrumento. Não são deslocamentos voluntários. São expulsões da própria narrativa de vida.
No romance Humilhados e Ofendidos, de Fiódor Dostoiévski, a dor não aparece como espetáculo, mas como estrutura. Reabrindo um exemplar antigo, desses que atravessam décadas conosco, encontro sublinhada uma frase que insiste em não envelhecer: “há sofrimentos que não se podem contar”. O sublinhado, feito talvez por um leitor mais jovem, hoje soa quase como advertência. Nos campos de refugiados, há histórias que sequer chegam a ser formuladas — não por falta de palavras, mas por ausência de quem as escute com real disposição de compreender.
Em outra passagem que anotei anos atrás, Dostoiévski observa que “o homem acostuma-se a tudo — eis a sua maior miséria”. O que ali parecia um comentário sobre a resistência humana revela, no presente, um diagnóstico mais incômodo: não é apenas o indivíduo que se adapta à dor, mas sociedades inteiras que aprendem a administrá-la. O campo deixa de ser exceção e passa a integrar o cenário. A precariedade deixa de chocar e passa a ser gerida.
Há ainda um trecho que, relido hoje, adquire peso quase insuportável: “somos todos culpados por todos”. Não como metáfora, mas como implicação direta. A responsabilidade deixou de ser abstrata. Cada crise prolongada, cada negociação adiada, cada decisão política que empurra o problema para além das fronteiras contribui para a permanência dessa engrenagem que transforma sofrimento em rotina.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, tem reiterado que o deslocamento forçado “não é uma fatalidade, mas o resultado de decisões e omissões”. A frase desloca o eixo da análise: retira o fenômeno da esfera do inevitável e o recoloca no campo das escolhas humanas. Já Filippo Grandi, alto comissário para refugiados, advertiu que vivemos “um tempo de sofrimento humano intensificado, em que a resposta internacional se mostra perigosamente insuficiente”. Entre essas duas vozes, há mais do que constatação — há uma acusação velada à lentidão do mundo em responder àquilo que ele próprio ajudou a produzir.
A evolução dos números revela essa hesitação como método. De 2019 a 2024, o aumento de mais de 40 milhões de deslocados não corresponde a um único conflito, mas a uma sequência de crises não resolvidas: Síria, Sudão, Ucrânia, Afeganistão, entre outras. O provisório tornou-se permanente. O emergencial tornou-se estrutural.
Não por acaso, vozes como a de Malala Yousafzai, laureada com o Nobel da Paz, têm insistido que negar educação a crianças refugiadas é perpetuar o deslocamento em outra forma — menos visível, mas igualmente devastadora. Sem educação, o exílio deixa de ser um intervalo e passa a ser destino.
Dostoiévski escreveu sobre indivíduos esmagados por relações humanas degradadas. O nosso tempo ampliou essa escala: são sistemas inteiros que produzem e mantêm a humilhação. Campos que deveriam desaparecer tornam-se cidades improvisadas; vidas suspensas tornam-se biografias definitivas.
A questão, portanto, não é quantos são. É o que nos tornamos diante deles. Porque, enquanto os números avançam, algo recua silenciosamente: a nossa capacidade de reconhecer no outro não um problema a ser gerido, mas uma vida que deveria ter sido protegida.
*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum
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