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​O Belo e o Bélico

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10.03.2026

Escrevo este artigo ao som da banda sonora do filme A Missão. Faço-o para me recolher na beleza desta música, que me transporta para a história, para a missão, para a vida entregue daqueles missionários, para as razões e interpretações que deram aos desafios e realidades com que se depararam.

Transporta-me também para a abertura dos índios, que se apresentaram com coração de crianças, curiosos, abertos e puros, mas igualmente para o lado bélico que resulta numa interpretação desvirtuada do belo. Por tudo isto, este é um dos filmes que mais me marca, por tudo o que encerra dentro de si mesmo

Surge também o papel multipolar da Igreja, que provoca uma certa ambivalência: por um lado, a Igreja missionária que “serve em serviço”, com homens que entregam a sua vida de forma abnegada pela missão, atentos às necessidades das populações e à oportunidade da evangelização, procurando partilhar, com a sua própria vida, aquilo que de mais importante tinham. Por outro lado, a Igreja instituição, “distante e que ordena”, com as suas limitações, condicionalismos e ligações aos poderes políticos instituídos, e com a leitura distante que faz dos acontecimentos, onde a ideia e a regra se sobrepõem muitas vezes à situação concreta e à realidade que acaba por se ver abandonada. Uma Igreja que, de alguma forma, acaba por conviver com o belo e com o bélico.

E esta ambivalencia, entre o que é belo e o que é bélico, é a realidade com que nos cruzamos e com que convivemos hoje, no mundo, na sociedade, dentro de nós. Tão rapido temos gestos de serviço e de atenção ao outro, como temos pensamentos, palavras ou actos de confrontação, de agressão, muitas vezes reféns das nossas razões. Num mundo e numa sociedade em que a lei do mais forte impera, num exercicio da força indiscriminada, o bélico acaba por oprimir o que é belo, destroi-o, com rapidez, abafa-o. Ou é como digo e mando, ou destruo, num sentido de justiça unilateral. A beleza que existe no esforço de comunicar, de compreender os outros ou de negociar acaba rapidamente destruída.

O belo exige tempo, esforço, estética, co-responsabilidade. Exige harmonia, escuta, querer, verdade ecompromisso. No belo estou eu e o outro, ou melhor, os outros, os muitos, o todo. O bélico pode ser (aparentemente) rapido, eficiente, eficaz, foca-se nos fins e não olha a meios. Não respeita o outro, os outros ou os muitos ou o todo. É unilateral.

O belo vem sempre acompanhado da curiosidade, da descoberta. O bélico não perde tempo com isso. No filme A Missão, há um momento supremo em que, por detrás da desconfiança dos índios perante os missionários que se aproximam - quando o mais natural seria o uso da força - escutamos o ribombar dos batuques e, no meio deles, surge o oboé de Gabriel.

Quando a comunicação se mostra como impossivel, é o belo que se sobrepõe, é a música daquele oboé, que serena os animos, desperta a curiosidade, provoca o sorriso, faz surgir o convite para se juntarem e , dali, nasce a amizade, o companheirismo, a hospitalidade, o acolhimento. Quando nos faltam as palavras e os argumentos, a beleza da música, da cultura, da história, da arte, torna tudo sublime e transcendente. Também os países têm na sua história momentos de enorme beleza, demorados e construidos, de coragem, de superação, de desenvolvimento mas que, muitas vezes, coexistem com momentos bélicos, de exercicio da força indiscriminada, rapida e destrutiva.No bélico há sinais de desistencia, ao contrário do belo que exige perseverança.

Que beleza me aproxima dos outros? Que música ou arte lhes levo? Como comunico? Ou como me dou? Sim, porque nao há maior beleza do que ser eu mesmo, apesar das imperfeições, das quedas, das fraquezas, apesar da falta de beleza que posso transportar em mim. E quando não houver alternativa, que seja o oboé de Gabriel a tocar no meu coração, tornando possível o que parece impossível.

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