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Em memória de David, o aspirante Ramos da Revolução de Abril

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24.04.2026

A minha ria é a do Douro do vinho e também a dos muitos cursos de água do Alvão, serra que avisto desde casa e em cujos lameiros verdejantes esvoaçam borboletas de todas as cores, como a muito ameaçada borboleta-azul-das-turfeiras. No último domingo, segui-lhes o rasto, desfrutando da sua beleza efémera e dos mistérios de outras espécies que habitam o mesmo espaço, como a minúscula orvalhinha-redonda (Drosera rotundifolia L.), uma plantinha carnívora com lindas folhas em roseta que segregam uma substância viscosa para capturar insectos. Mesmo ao lado, a aldeia de Lamas de Olo seguia na sua pacatez bucólica, já sem casas de colmo. É pena. Deviam ter preservado, bem à vista, pelo menos uma ou duas como testemunho histórico, para se perceber melhor a paisagem da miséria daquele outro tempo.

A ria de David Lopes Ramos, saudoso colega e amigo, era a de Aveiro e na sua criação os barcos coloridos ainda não transportavam turistas, só moliço para adubar as terras de areia. Era a mesma exótica pobreza de Lamas de Olo e do resto do país, sobretudo do interior, vivida com medo e sem esperança. Num caso como no outro, emigrar era o grande desígnio.

No dia 24 de Abril de 1974, tal como Vasco Lourenço e Melo Antunes, duas figuras centrais do golpe e da posterior democratização do país, David Lopes Ramos estava em S. Miguel, Açores, a cumprir o serviço militar, como aspirante a oficial miliciano. Era ajudante de Vasco Lourenço e, de algum modo, também lhe somos credores de podermos viver hoje em liberdade, sem medo de........

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