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Onde a raiva floresce, cultive um jardim digital

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26.02.2026

Os artigos da equipa do PÚBLICO Brasil são escritos na variante da língua portuguesa usada no Brasil.Acesso gratuito: descarregue a aplicação PÚBLICO Brasil em Android ou iOS.

Em um tempo em que o gesto automático é deslizar o dedo por uma tela do celular, acumulando notícias, vídeos e imagens, a relação com a informação tornou-se um dilema: consumimos mais do que nunca e retemos cada vez menos. O fluxo contínuo cria uma sensação de atualização permanente, mas também um tipo de esquecimento programado altamente prejudicial para o cérebro humano. Aquilo que parecia urgente há segundos é substituído pelo próximo conteúdo.

Na tentativa de reter a informação, recorremos aos botões “salvar” ou “ver mais tarde”. Quando nos damos conta, passaram-se 30 minutos e quase nada lembramos do que vimos. A dopamina do consumo cede lugar à fadiga mental, até surgir um conteúdo produzido para reter a atenção e ativar emoções intensas: da empatia à frustração, da inspiração ao sentimento de inadequação.

Nesse momento nos tornamos uma isca de raiva, em inglês Rage bait, a palavra do ano de 2025, eleita pela Oxford University Press para descrever o fenômeno de conteúdos online criados intencionalmente para provocar indignação, raiva e frustração, visando aumentar o engajamento e a interação.

Como exemplo, aqueles conteúdos propagados por páginas e perfis, apenas com recortes descontextualizados sobre um político, uma celebridade ou mesmo um assunto de grande interesse público, como são os casos da imigração, do racismo e das questões de gênero.

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Técnicas de storytelling e gatilhos mentais são utilizados intencionalmente para provocar reações imediatas: comentar, compartilhar, indignar-se ou concordar fazem parte da arquitetura do conteúdo. O algoritmo aprende rapidamente e passa a alimentar esse ciclo a partir dos recursos que as próprias plataformas disponibilizam.

Pronto, cumprimos o ritual intencionalmente estruturado para isso. Não é genuíno ou natural. Somos manipulados mentalmente a reagir porque é exatamente assim que a indústria de conteúdo, operada pelas Big Tech, ganha dinheiro, retendo a nossa atenção. E quanto mais tempo de tela, mais lucro para as plataformas.

É neste contexto que o conceito de jardim digital surge como uma alternativa ao consumo acelerado e às lógicas das plataformas, que privilegiam a velocidade e a retenção da nossa atenção. Na impossibilidade de se desconectar completamente, o termo descreve um espaço digital pessoal onde ideias, notas, referências e fragmentos de pensamento são cultivados ao longo do tempo. Mais do que um blogue tradicional, trata-se de um ambiente vivo e em constante evolução, onde ideias soltas, textos inacabados podem crescer e conectar-se com outras ideias.

O termo jardim digital ou digital garden não tem um único inventor e nem é algo novo. Surgiu em 1998, quando as redes sociais, como as conhecemos hoje, ainda davam os primeiros passos. No entanto, vem sendo aprimorado nos últimos anos, ganhando adeptos de diversas áreas e profissões. Mais do que uma tendência cool de entusiastas da Internet, o jardim pode ser um método bastante útil para qualquer pessoa. Você pode aprofundar seu conhecimento sobre um tema, construir o seu próprio museu de pensamento.

Como tudo na Era Digital, já há dezenas de plataformas que oferecem recursos para você construir o seu jardim. Mas, aqui, eu recomendo que você não pague por nenhum aplicativo, tampouco complique o seu processo. Abra o bloco de notas do celular e crie duas categorias de notas:

Semear: é o ciclo inicial, onde você vai guardando todos os links que chamam a sua atenção, enquanto navega pelas redes sociais.

Germinar: os links e referências salvas começam a se conectar, e, com poucos minutos por dia, você terá diferentes ideias e perspectivas, podendo criar a sua própria narrativa e opinião, a partir das referências.

Como todo jardim, você precisará regá-lo. Em vez de rolar a tela do celular e acumular mais links, abra-o todos os dias e escreva a sua própria opinião sobre o assunto. As ideias se conectam a partir de notas e frases isoladas, que, ao longo do tempo, vão ganhando significado. Ideias surgem, amadurecem e transformam-se.

O jardim é um refúgio para o desenvolvimento do pensamento crítico. Cada referência é uma semente que pode tornar-se uma ideia ou mesmo um projeto. Enquanto o scroll infinito nos impulsiona para o próximo estímulo, o conceito de jardim digital nos convida a observar e cultivar.


© PÚBLICO