Mais almas ternas para um mundo violento
À noite, antes de embarcar na viagem solitária de Morfeu, dou comigo a pensar em coisas simples: um abraço que encaixe sem esforço, um piscar de olhos cúmplice no meio da multidão de estranhos, um telefonema — não a mensagem escrita, asséptica, sem ruído nem emoção — a meio do dia, só para mandar um mimo; uns ovos mexidos partilhados no piquenique improvisado.
Penso nas almas carinhosas que nos dão a mão a caminho do mundo. Dar a mão, imagino eu, talvez resolvesse muitos dos grandes males: sentir a temperatura da mão que segura a nossa, perceber que há vida para além da nossa própria pele. Não estamos sós, apesar do emaranhado de solidões no caos dos dias. Procuramos as mãos que segurarem a nossa. Sabemos da fidelidade das mãos. Sonho em ser lamechas — como aconteceu a Miguel Esteves Cardoso, coisa que há uns tempos me era incompreensível, mas agora não, agora entendo-o bem — sonho em deixar-me amolecer na paz dos que são amados de forma segura e amá-los, com a mesma segurança, como merecem. Porque precisamos, talvez mais do que nunca, de almas ternas neste mundo violento.
Choramos ao nascer — não porque o oxigénio nos magoe a perfurar os pulmões, mas porque sentimos que o mundo é um lugar inseguro e nós criaturas frágeis, cascas de noz à deriva em grandes mares. Choramos porque sentimos o desamparo, apesar dos progenitores — para os que ainda assim são privilegiados, os que os têm por perto, pelo menos uma mãe ao darem de caras com o mundo.
Choramos porque pressentimos, como o animal que somos, que vai ser difícil; que há perigos constantes que não sabemos nomear nas primeiras horas e que continuaremos a aprender ao longo da vida. Por isso é tão importante uma mão que nos dê a sua. Por isso é tão vital darmos a nossa mão para que outro a segure. E quero lá saber que seja um cliché, mas a verdade é esta: a amizade é o grande amor das nossas vidas.
