Cães, entropia e jogos de tabuleiro
O intervalo entre nós e os outros pode ser imenso. Às vezes insuprível.
Nas redes virtuais que alimentamos como a gatos famintos, onde capitalizamos o nosso tempo, as nossas emoções e convicções, a nossa privacidade, a nossa atenção — o fosso entre o que desejaríamos ser e o que somos adensa-se. E talvez o intervalo fique ainda maior com esta nova ferramenta de comunicação, este canivete suíço das relações: os smartphones, que nos prometem a virtude do mundo ao nosso alcance, e simultaneamente nos parecem fazer escapar dele, ou fazê-lo escapar de nós, como líquido entre as mãos.
As memórias têm muito espaço no meu discurso, não por ser saudosista mas por de alguma forma servirem de pontuação a uma narrativa que de outra forma me parece confusa, emaranhada, incalculável. Inatingível. A possibilidade de atingir a minha própria história, sempre atada à dos outros, preocupa-me. A possibilidade de a deixar escapar como um líquido entre as mãos, também.
Sugeriu-me a Amiga, a quem por laços da vida, deposito fé e amor de irmã, que déssemos o pulo para o novo ano do calendário numa casa no campo, junto de outros amigos que são dela por afinidade, meus por empréstimo e confiança, amigo do meu amigo… meu amigo é.
Durante 48 horas (que na contingência passageira dos dias de trabalho parecem evaporar-se em névoa) sentámo-nos à lareira, deixámos os cães à solta pela casa, ocupámo-nos das refeições, da lenha para atiçar o fogo, de jogos de tabuleiro, dos cajus torrados que iam amaciando nos dentes, de conversas sobre assuntos de menor relevância como a substituição de........
