Afinal, o que é isso do liberalismo?
O liberalismo é uma filosofia política plural com uma única porta giratória de entrada e diferentes saídas. Quer isso dizer que começa sempre pela constatação da ameaça que a soberania e o Estado podem representar para a liberdade dos indivíduos e das sociedades que estes compõem, evoluindo, a partir daí, para diferentes posições sobre a forma de como nelas se deverá agir posteriormente.
Não haverá, podemos dizê-lo com segurança, nenhum liberal que não se reveja na máxima de Lord Acton, quando este dizia que “o poder corrompe” e o “poder absoluto corrompe absolutamente”. A premissa da “corrupção” não era, contudo, necessariamente económica e financeira, mas também, ou sobretudo, de natureza moral. Isto é, tanto se deixa corromper um político que recebe dinheiro indevido em troca de favores, como aquele que fica cego pelo poder que, num determinado momento, detém e usa para a sua satisfação pessoal e a do seu ego. Este último caso é de corrupção integral e não redimível do ser humano, enquanto que o primeiro revela um carácter venal, mas que pode, ainda assim, salvaguardar algumas dimensões da sua humanidade, que poderão mesmo vir um dia a libertá-lo. Sobre a corrupção integral do Homem, a Bíblia ilustra-a com “a queda do Anjo”, em Isaías, Lucas, Pedro e no Apocalipse; nos tempos modernos, também John Ronald Reuel Tolkien compôs, sobre ela, o fabuloso mito do Senhor dos Anéis e do infeliz Gollum.
Por outro lado, uma vez assente o princípio de que a soberania é uma potência em contínua expansão que deve ser contida pelas estreitas e firmes baias do Estado de direito democrático, pela Constituição, pela lei e pelo sufrágio universal, valores que todos os liberais aceitam, imediatamente principiam as divergências sobre a forma de atuar na sociedade. Uns consideram o livre-mercado como o único processo de criação e distribuição justa de riqueza; outros admitem um intervencionismo estatal limitado; quase todos se revêm num direito de propriedade lockeano como base incondicional da liberdade; alguns defendem o cosmopolitismo internacional, enquanto que outros são adeptos de um certo protecionismo das fronteiras e dos interesses egoístas dos Estados; há-os, assim, partidários da integração económica e da União Europeia e também os que a consideram um antro repulsivo de burocracia estatista e a causa dos grandes males que nos afetam. A grande diferença entre as principais correntes liberais estabeleceu-se nas Luzes entre o liberalismo anglo-saxónico, empirista, adepto da tradição como fonte de conhecimento, livre-cambista e defensor dos direitos naturais do indivíduo face ao Estado, e o liberalismo gaulês, que é racionalista-cartesiano, nacionalista e que propõe que seja o Estado a reconhecer e a defender unilateralmente os direitos individuais do agora cidadão.
Estas diferentes formas de liberalismo começaram, de facto, por contestar unanimemente, também durante as Luzes, os absolutismos, expressão política que os franceses, com rara felicidade, denominaram de Ancien Régime, e, por isso, na segunda metade do século XVIII e durante o século seguinte, todos os liberais partilharam esse denominador comum. Todavia, ainda durante este período, as suas divisões foram-se acentuando e tornaram-se bem visíveis. Na verdade, algum desse liberalismo deixou-se ficar pela necessidade de conter o Estado e de garantir, através dele, os chamados “direitos fundamentais”, que passam a ter previsão constitucional e cujo elenco foi evoluindo ao longo do tempo, enquanto outros, os de perfil anglo-saxónico, consideraram a liberdade económica, assente na propriedade e no livre-mercado, condições imprescindíveis e mesmo até anteriores à própria liberdade política.
Ludwig von Mises, um célebre economista austríaco que representa bem esta última........
