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Quem vai ser dono das máquinas?

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Quase tudo o que se discute sobre inteligência artificial é sobre o que as máquinas vão conseguir fazer. Discute-se muito menos quem as vai pagar e de quem vão ser. Os centros de dados, os chips, as centrais elétricas e os robôs são capital, e o capital paga-se com poupança: alguém tem de consumir menos hoje para que as máquinas possam ser construídas. A fatura já é grande. Stijn Van Nieuwerburgh, da Universidade de Columbia, estima que os grandes centros de dados para inteligência artificial vão absorver 3,6% do PIB americano por ano até 2032, boa parte em chips que deixam de servir ao fim de três a seis anos.

Esta é a pergunta mais importante da política económica para a próxima década. A resposta vai decidir a que ritmo crescemos, onde se cria a riqueza e quem fica com ela. E depende de escolhas que se fazem agora: como poupamos, como tributamos, como organizamos as pensões, o mercado de capitais, o mercado de trabalho e a morte das empresas.

A poupança é o travão

Um artigo recente de Jesús Fernández-Villaverde, economista da Universidade da Pensilvânia, ajuda a perceber porquê. Chama-se “Saving for the Machines” e constrói uma economia estilizada: um modelo que deixa de fora quase tudo para isolar uma força de cada vez, como um túnel de vento isola o efeito do ar sobre uma asa. Nessa economia, as famílias trabalham e recebem salários, mas também são donas das empresas e das máquinas, e por isso recebem todo o rendimento do capital. Poupar, no modelo, é tudo o que não se consome: o que as famílias põem de lado, os lucros que as empresas reinvestem em nome dos donos e o que se gasta a substituir equipamento velho. A inovação é que as máquinas aprendem a fazer todas as tarefas entre 2025 e 2045.

O resultado é surpreendente. Se a poupança se mantiver no nível de partida, 23% do que a economia produz, o crescimento sobe durante uns anos para cerca de 4% e depois volta aos 1,6% de antes. Se as famílias pouparem o que os rendimentos das máquinas justificam, a mesma economia cresce 11,7% ao ano em 2045. A tecnologia é a mesma nos dois casos. O que muda é a poupança. O travão da inteligência artificial pode estar menos nos algoritmos do que no dinheiro posto de lado para os pagar.

A explicação é aritmética, e por isso deve sobreviver a qualquer modelo. A taxa de poupança é igual à parte do rendimento que vai para o capital vezes a fração desse rendimento que é reinvestida. Quando as máquinas fazem cada vez mais tarefas, a parte do capital sobe de um terço para quase tudo. E quem é dono do capital continua a reinvestir mais ou menos a mesma fração do que as máquinas rendem: no modelo, passa de 69% para cerca de 55%. A poupança sobe assim para mais de metade do produto sem que ninguém se torne mais poupado. O rendimento muda de natureza, passa a ser rendimento do capital, e é esse que se reinveste.

Para quem vive do salário, os resultados são duros. Se as máquinas puderem fazer todas as tarefas, ninguém ganha mais do que custa a máquina que o substitui, e os salários caem para entre um quarto e metade do que seriam. O produto, esse, multiplica-se. A economia no seu conjunto ganha imenso, mas as famílias que vivem do salário e não têm património perdem o equivalente a 40% a 66% do seu consumo. A boa notícia é que compensá-las é barato, porque o bolo cresce muito mais depressa do que os salários caem. A transferência necessária chega a um pico entre 4% e 20% do PIB e desce para menos de 4% em trinta anos.

O autor insiste que estes números não são previsões, e tem razão. Servem para medir forças. E a lição mais importante está no pressuposto do modelo: as famílias são donas das máquinas. Se as máquinas fazem o trabalho, o rendimento vai para quem as tem. A pergunta passa a ser quem.

A economia do modelo é fechada, e o que as famílias poupam é o que as empresas investem. Portugal é pequeno e aberto. As nossas máquinas podem ser construídas com a poupança de qualquer pessoa, e ainda bem: há anos que defendo que devíamos querer muito mais capital estrangeiro. Mas, se forem construídas com poupança estrangeira, o rendimento delas vai para fora, e os portugueses ficam com o salário. Num país pequeno, a pergunta é menos quem poupa para as máquinas e mais quem é dono delas.

Aqui partimos muito atrás. No inquérito do Banco Central Europeu de 2021, 62% das famílias da zona euro tinham casa própria e quase todas tinham depósitos, mas só 11% tinham ações cotadas em bolsa. Em Portugal, segundo o inquérito do Banco de Portugal e do INE, 98% das famílias têm depósitos e 70% têm casa, mas só 9% têm algum ativo financeiro transacionável: fundos, ações ou obrigações. Os depósitos são 44% dos ativos financeiros das famílias, e em abril deste ano os bancos pagaram 1,44% pelos novos depósitos a prazo, das taxas mais baixas da zona euro, onde a média foi 1,91%. Nos Estados Unidos, 58% das famílias têm ações, a maior parte através de contas de reforma.

Dir-se-á que a casa foi tão bom investimento como as ações. Òscar Jordà e os seus coautores mostram que, nos países ricos, desde 1870, a habitação rendeu cerca de 7% ao ano acima da inflação, tanto como as ações. Mas uma casa é um direito sobre um terreno e sobre o rendimento de quem lá quer morar. Se os salários perderem peso e o rendimento do capital disparar, a casa só valoriza se os........

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