Tempo de Atenas: o ativismo vê-se grego
Há 5 meses (o tempo devia ser multado por excesso de velocidade), escrevi a minha primeira crónica no Observador. E já mencionava “A Odisseia”. Agora que o filme polemiza nos cinemas, senti-me tacitamente desafiado pelo Carlos Bobone a voltar ao assunto, que ele também esgrimiu. Como reza um ditado brasuca: dou um boi para não entrar numa briga, e dou uma boiada para não sair dela.
A obra de Homero é a raiz do cânone ocidental, e, depois da Bíblia, a que mais influenciou o respectivo imaginário. Raymond Queneau, no prefácio a “Bouvard et Pécuchet”, de Flaubert, sentenciou: “Toda grande obra literária é ou a Ilíada ou a Odisseia”. Esta última foi adaptada para a Sétima Arte já em 1905, por Georges Méliès, o pioneiro a perceber o cinema como um espetáculo narrativo. Em “L’île de Calypso: Ulysse et le Giant Polyphème,” com o cinematógrafo acabadinho de inventar, o próprio Méliès fez de Ulisses. E, como um bumerangue, o marido de Penélope nunca mais parou de regressar a Ítaca, até na forma canina de um Jack Russell (“Wishbone”), ou do sapo Cocas, com a camaleónica Miss Piggy em vários avatares (de Penélope a Circe, sem contar uma sereia suína).
Todos aqueles são personagens ficcionais ou mitológicos, e não seres históricos – mas a ressonância perene de Homero é atestada pelo romance mais inovador da literatura moderna, o “Ulisses” de James Joyce, em que não há nenhum Ulisses – o herói homérico foi transfigurado num judeu dublinense, e Penélope, o paradigma da fidelidade, numa sirigaita que põe os palitos no marido no próprio lar-doce-lar.
Se são obras de ficção, não implica que Troia e Ítaca se reduzam a minhocas na cabeça de Homero. Por séculos pensou-se que a Ilion do rei Príamo era uma espécie de Terra do Nunca. Até que Heinrich Schliemann, comerciante alemão tarado por arqueologia, aprendeu vários idiomas (entre eles o Português) e jurou exumar Troia. Em 1870, escavou ao pé de Hissarlik, na Turquia. E tropeçou em camadas de cidadelas mais velhas que a minha avó, umas sob as outras. A 10 metros de profundidade – eureca! – identificou as ruínas troianas e “o tesouro de Príamo”. Infelizmente, errou. Ao se afastar da superfície (e usar dinamite), esfarelou as ruínas de 9 cidades antigas – incluindo partes da verdadeira Troia. Schliemann fez um sorriso amarelo: ah, o que conta é a intenção, não?
Homero, a quem os Gregos chamavam simplesmente «о poeta”, era o nome de um homem, não o equivalente helénico do Soldado Desconhecido. Mas o resto (quem era, onde vivia, em que data criou, se era ou não cego) é conjectura. A “Ilíada” e a “Odisseia” podem ser obras de dois autores diferentes, decerto do século VIII a.C, e talvez primeiro como narrativas orais, depois transcritas (o alfabeto grego é uma invenção dos Fenícios, mas com a espertíssima adição das então inéditas vogais, como o alfa e o ómega).
Odisseu (Ulisses é a versão latina) é o rei de Ítaca, casado com Penélope e pai de Telêmaco. Depois do prolongamento de 10 anos, a guerra de Troia foi desempatada nos penaltis, com o golo decisivo (o cavalo de madeira) marcado por Ulisses. A história começa em “medias res” (pelo meio), e o protagonista consome uma década a remar contra a maré para regressar à base, fintando a ninfa Calipso, e feiticeira Circe e o Ciclope, entre outros empatas.
Nas guerras culturais contemporâneas, em que atiramos primeiro e perguntamos depois, volta e meia o debate sobre o filme reduz-se a um lado deitar a língua ao outro. Houve a controvérsia do elenco, com os identitários celebrando a diversidade da fita, cuja Grécia da Idade do Bronze desfila um arco-íris multiétnico: asiáticos, americanos, negros, hispânicos – só faltam, bem, gregos. Os conservadores fizeram beicinho, e foram instruídos de que precisamos respeitar todas as identidades do cosmos, exceto as nossas – que são umas cacas. Como se sabe, os islamitas não se importaram nem um bocadinho que Salman Rushdie desse a sua versão do Corão –........
