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O centro e os centristas: cada vez mais excêntricos

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12.03.2026

Numa época em que tanta gente ganha o seu caviar Beluga a professar virtudes histriónicas, a virtude já não está no meio, mas na polarização desenfreada. O meio, coitadinho, parece cada vez mais a definição de Pascal do universo: “Uma esfera cujo centro está em todo lado, e a circunferência em lado nenhum”. Só que um centro ubíquo obviamente não centraliza nicles.

Para o bom & velho Aristóteles, fazia sentido a virtude fintar os extremos. A coragem é o meio-termo entre a cobardia e a temeridade; a generosidade, entre a avareza e o esbanjamento; a confiança, entre a insegurança e a arrogância. Segundo o Estagirita, o equilíbrio é calibrado na prática, não em piloto automático, e por isso a via mais árdua. Em tese todo o ser humano estava sempre “no meio” – a beneficiar no presente das gerações passadas, enquanto cumpria as suas obrigações para com as gerações futuras. Já não: para a geração presente, as gerações passadas foram do piorio, e por isso a atual não tem futuro.

Segundo Churchill, “quem não é progressista aos 25 anos, não tem coração. E quem não é conservador aos 35, não tem cérebro”.  A dicotomia direita/esquerda, até certo ponto natural (nossos pés e mãos, canhotos e destros), remonta à Assembleia dos Estados Gerais de 1789, quando, no início da Revolução Francesa, a nobreza sentou-se à direita, e o Terceiro Estado à esquerda (sim, a burguesia já foi a esquerda, e voltou a sê-lo com os wokes radicais chics).

A polarização reina até individualmente, com os nossos hemisférios cerebrais a puxarem cada um a brasa para a sua sardinha, com os seus pontos cegos e vieses de confirmação. É mais fácil aceitar o ponto de vista do hemisfério esquerdo, enunciável sem ambiguidade e que simplesmente se opõe à perspectiva do direito, do que perfilhar a opinião deste, multifacetada e sutil, e inerentemente aberta à perspectiva do esquerdo. Na Itália, chamam à esquerda “sinistra” – bom, eles lá sabem. Mas alegam os neurologistas que precisamos de ambos os hemisférios como de pão para a boca.

Como notou a franco-hispânica Anais Nin, “não vemos os outros como eles são: vemo-los como nós somos.” Daí a tentação totalitária do conforto unidimensional: o “centralismo democrático” de Lenine, em que tudo o que não era proibido, era obrigatório. Hoje habitamos um mundo que permite tudo, mas não perdoa nada (Nelson Mandela já lá vai). A internet revolucionou a imprensa com a perda dos monopólios publicitários nos mercados jornalísticos, obrigados a correr atrás dos likes nas redes sociais, cujos algoritmos exploram as nossas lealdades tribais.

Assim, o centro político – onde com sorte às vezes pulsavam a clemência, a flexibilidade e o sentido de humor – tende a mirrar por causa da polarização centrífuga. O debate reduz-se a impropérios vociferados por todos os lados das barricadas, com a profundidade de um dedal. Pregamos para convertidos idólatras, e bloqueamos os iconoclastas.

A chatice do groupthink é que, como diz o brasileiro Nelson Rodrigues, «toda a unanimidade é burra». E como acrescentou alguém: «Quando toda a gente pensa igual, é porque ninguém está a pensar.» Abelardo, o filósofo do século XII, expressava desdém por qualquer um que, numa discussão, concluísse que ele tinha........

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