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O que fizeram à cultura

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31.12.2025

1 A cultura não é uma soma de conhecimentos. É uma disciplina do espírito que nos permite viver uma vida que valha pena. E que ninguém nos pode tirar porque é nossa. É isto que eu sempre disse, digo e direi aos meus alunos. A cultura não é ciência muito embora a ela não seja alheia. Muito menos erudição ou competência científica. Resulta de uma visão global das coisas perpassada de espírito crítico, bom-senso e sagacidade e dela não é separável uma concepção ética das coisas. Conheço vários especialistas profundamente incultos porque sabem cada vez mais de cada vez menos, como dizia Ortega y Gasset.

Neste nosso mundo em que o analfabetismo quase não existe e em que o ensino é cada vez mais acessível poderia pensar-se que a cultura estava de parabéns e que a vida individual e colectiva iria beneficiar disso. Pura ilusão.

2 A única obra de Marx que me impressionou foi um dos seus escritos de juventude, os Manuscritos Económico-Filosóficos, onde denunciou a mercantilização da vida. Não foi o primeiro a fazê-lo (na tradição cristã esta realidade estava denunciada muito antes dele), mas fê-lo de forma magistral. A ideia é esta; a propriedade privada dos meios de produção separa o trabalhador do produto do seu trabalho e transforma-o em mercadoria. A sua consciência, consequentemente, mercantiliza-se e só absorve como mercadoria tudo aquilo a que tem acesso. Marx não desenvolveu este filão mas o internacional-situacionismo, já anterior ao Maio de 68, e que tanto entusiasmou a minha juventude, fê-lo. Debord, autor que me interessou, caprichou na tese segundo a qual o capitalismo fez da cultura um dispositivo ideológico de fácil acesso e fraco conteúdo de modo a inculcar nas massas a visão das coisas que lhe interessa, ao serviço da sua hegemonia ideológica. Transformou, em suma, a cultura em mercadoria e vende uma imagem deturpada e falsa da realidade de modo a assegurar o seu domínio. O capital não tem interesse no analfabetismo. Tem interesse é na disseminação de uma cultura fácil, consumível como as batatas fritas, inócua, descartável, que busca o entretenimento em vez do esclarecimento e que não puxa nada pelo intelecto. Uma cultura de massas, aderencial, facilmente assimilável e consumível que dá aos seus adeptos a ilusão de uma vida fluida e conseguida, a que Debord chama «espectáculo». O «espectáculo» é a ditadura da ilusão.

Claro que para os marxistas, tribo a que não pertenço, o fim deste estado de coisas só com a substituição do capitalismo pelo comunismo, reconciliando o homem consigo mesmo através do poder do eEstado. Nunca aceitei esta explicação que sempre considerei profundamente estúpida, perigosa e........

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