#CresceEAparece!
Na rua, nas brincadeiras, o que predominava era o jogo da bola. Sempre que possível pegávamos numa e jogávamos como se não houvesse amanhã. Às vezes, quando não havia nenhuma por perto, improvisávamos com trapos, com laranjas, com o que houvesse, mas desde que se conseguisse malta, e para isso dois bastavam, havia jogo e brincadeira. Nessa altura, ali, pelas redondezas mais estreitas de St.º Ildefonso, a diversão era sempre possível até a mãe ou algum irmão mais velho nos arrancar do folguedo para a janta ou para o ritual dos “deveres”. Aos fins de tarde e sempre que não havia aulas, era assim que passávamos o tempo e a meninice. Jogar à bola, era a actividade mais frequente, mas também jogávamos à “casquinha”, às escondidas, saltávamos à corda, etc. Por vezes fazíamos corridas de um contra o outro pela Ruas de Passos Manuel, da Alegria, Formosa e St.ª Catarina, um quadrilátero perfeito. E improvisávamos. Um corria por um lado e o outro em sentido contrário, quem primeiro chegasse ao ponto de partida ganhava. Quase sempre quem perdia reclamava que o seu circuito era mais longo, tinha mais subidas, etc., mas ninguém amuava. Eu nas corridas perdia sempre e era tão fraco que quando as fazíamos num improvisado regime de estafetas, era sempre o último a ser escolhido. Não tinha jeito para correrias e para jogar à bola também não tinha grande queda. Porém, participava sempre. Sempre que havia jogo ou actividade lúdica, lá estava eu. Desengonçado, sem grande jeito, mas lá estava, sempre pronto e feliz por participar.
Às vezes gozavam-me de fininho, como hoje se diz, havia “bullying”, mas eu não me importava, o que queria era participar e curtir com o maralhal. Estar no grupo era o mais importante. E se não tinha queda para a bola, se era muito tosco de pés e ficava em último nas corridas desenfreadas, isso não me diminuía minimamente. Eu gostava era de basquetebol. Haveria de ser bom nisso!
À noite enquanto adormecia, imaginava-me de bola na mão, a driblar, a driblar pelos “State Warriors” no “Oracle Arena de Oakland, Califórnia” e – saía de bola controlada, aproximava-me do meio-campo do adversário, tinha habitualmente dois jogadores a bloquearem-me, mas arranjava quase sempre uma linha de passe para Klay Thompson ou Harrison Barnes. Estes de imediato metiam a bola em Draymond Green ou Andrew Bogut que umas vezes iam para o cesto, mas muitas vezes devolviam-me a bola e eu, já solto de adversários, ou depois de uma ou duas simulações, atirava e quase sempre conseguia os três pontos. Aí, colocava as mãos juntas, numa prece junto à face, como que a dizer aos adversários que o melhor era irem dormir. Eu era o Stephen Curry, o armador da equipa, o n.º 30.
Umas vezes equipávamos de branco com pormenores azuis e dourados, noutras o equipamento era de base azul. Era lindo. E eu imaginava-me a vestir aquela camisola n.º 30 e a multidão a delirar com a minha actuação. Recordo-me do 3.º jogo contra os Cleveland Cavaliers onde após uma série de cestos da zona dos 3 pontos, fiz, a um minuto do fim, mais um desses cestos brilhantes que ajudou à vitória por 110-102, garantindo-nos o título da NBA em 2018. Foi a loucura no estádio e no meu quarto. Vinte mil espectadores assistiam maravilhados aquele que foi um dos mais empolgantes jogos do ano e, enquanto exultavam e gritavam o meu nome, eu saltava de felicidade. O resultado foi para os Warriors garantirem o título da NBA em 2018 e para mim, feliz que estava, uns sopapos por na euforia da ocasião ter partido a cama e o candeeiro de cabeceira.
Todo o meu quarto respirava basquete. E eu sabia que quando as coisas não me corriam pelo melhor, fosse na bola, fosse nos amigos, fosse nas “namoradas” para quem era quase sempre “translúcido”, fosse quando fosse e pelo que fosse, eu sabia que no fundo havia um futuro risonho que me esperava. O meu quarto era o meu refúgio e para espanto de todos eu ainda haveria de ser jogador de basquete da NBA. Esse era o meu destino, não tinha dúvidas. O meu quarto, era o meu oráculo, o santuário onde num “ritual sagrado” atirava bolas de papel, ou o que tivesse à mão para o cesto (do lixo) e, como um “áuspice”, via naquele resultado o que o destino me tinha reservado – ser um idolatrado jogador de basquetebol!
“Grande”, assim eu me via, mas sempre ansioso pois “os grandes têm sempre sucesso entre as meninas”, ouvia recorrentemente à rapaziada. Porém no meu caso deveriam estar todas longe do meu campo de visão, uma vez que uma qualquer jovem, a existir, estava-me sempre oculta. Alguns anos antes tinha tido um “crush” por uma menina que fazia ballet e que não sei se era pela graciosidade que lhe via quando andava “em pontas”, se pelas pernas esguias e elegantes, se pelos cabelos de cachos dourados, o certo era que tinha por ela uma “paixoneta” que na minha escala de prioridades só era superada pelo basquetebol. À noite na cama, depois de me imaginar no “Oracle Arena” era com ela que sonhava enquanto me apaziguava com o mundo e adormecia. Às vezes, quando me sentia para aí virado, primeiro pensava nela e só depois é que vinha a partida de basquetebol. Nessa idade a ordem destes factores é absolutamente arbitrária. A coisa durou pouco, pois ao que se constou terá fugido com um gajo que era professor de remo e mais velho do que ela 30 anos. Ao certo não sei bem o que aconteceu, mas à noite e à falta de melhor é nela que penso.
Nunca pensei muito nisto, mas “translúcido” como era tinha de me agarrar a algo. Pode ser que um dia lhe escreva um poema! De qualquer forma, namoradas, nem “detrás”, nem “de trás”, pois, bem vistas as coisas, a expressão é demasiado misógina. Podia sempre inverter a ordem dos personagens e colocar a companhia pela frente ou de lado, mas não consigo, pois lembro-me sempre do que sofro no cinema quando tenho gente grande ao lado ou à frente. Grandes como descritos no adágio, se ao lado, invadem o meu espaço e me esmagam, à frente, o filme fica com um “rodapé” tipo relvado ou como um lago a refletir um pôr de sol lá ao longe. Aliás, nem gosto muito de falar das minhas experiências nas salas de espetáculo. Uma vez estava no cinema, numa fila um pouco acima do centro da sala quando comecei a sentir que caíam pipocas ali por perto. Não liguei grande importância, mas fiz mal porque aquilo era prenúncio do que viria a acontecer. Estava eu a incentivar-me, todo focado nas pernas da “bailarina” que nesse dia tinha ido comigo ao cinema, quando me caem um monte de pipocas logo seguidas por um gajo meio tolo que se tinha atirado de umas filas atrás. Levantei-me e ainda confuso, mas magoado e cheio de razão berrei-lhe e insultei-o. Porém e para perplexidade minha, o cabrão em vez de pedir desculpa, arreganhou-me os dentes e se não me afastava levava uma dentada. As merdas que me acontecem! Nunca mais fui ao cinema e a minha bailarina em breve foi “remar” para outras latitudes.
De modo que nem com namorada ou namorado, nem à frente nem de lado ou atrás, é só que teria de estar, era só que teria de me tornar grande e era só que no meu quarto, à noite, me via idolatrado por multidões. O meu quarto era o meu santuário, ninguém lá entrava. Aquele território numas águas-furtadas da rua de St.º Ildefonso com uma........
