Ressentimentos portugueses: apontamentos para uma genealogia
Na sua Genealogia da Moral, Friedrich Nietzsche identificava a origem do ressentimento no rancor alimentado por uma vontade de poder frustrada. A mesma frustração estaria na origem de todos aqueles códigos morais caracterizados por um desprezo tão sedimentado que chega ao ponto de negar o outro. Alimentado subterraneamente sob a forma de uma narcisista “vingança imaginária”, mas impossibilitado de encontrar um desfecho na acção, o rancor disfarçar-se-ia, assim, de bons sentimentos, acabando, porém – assim que se torna capaz de se exprimir –, por deixar cair a máscara e produzir uma vingança bem real. O poder produzido pelo ressentimento necessita, em qualquer caso, para se exercer, sempre de um contraponto, de “um mundo oposto e exterior”: afinal, “a sua ação é, no fundo, reação”. Por outro lado, Nietzsche contrasta com a moral, e com a ação vingativa produzida pelo ressentimento, outra visão: a de “um homem que justifique o homem, de um acaso feliz do homem, complementar e redentor, em virtude do qual possamos manter a fé no homem!” Libertar-se dos instintos de vingança seria, portanto, necessário para realizar aquela grandiosa obra de conversão cultural da humanidade a valores cujos antecedentes históricos o próprio Nietzsche tinha identificado na humanidade grega, no grande humanismo renascentista e em todas as expressões, políticas e culturais, atribuíveis àquilo que ele próprio definira como “espírito livre”, superior justamente por ser livre, a qualquer espírito vingativo. A relação entre poder e ressentimento está bem resumida numa expressão, tornada proverbial em Itália, usada pelo sete vezes primeiro-ministro italiano, Giulio Andreotti, figura política de longa carreira certamente não imaculada, tendo em conta os seus antecedentes mafiosos, mas também não isenta de uma certa ironia: “o poder desgasta quem não o tem”. Com Nietzsche, poder-se-ia acrescentar que um poder produzido pelo ressentimento desgasta, com o tempo, e até mesmo quando chega a exercer-se, também quem o detém.
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