menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

História de um "incidente" construído

10 0
11.01.2026

Não aconteceu de repente. Aconteceu de forma subtil e silenciosa. Aconteceu devagar. Houve silêncio. Houve repetição. Houveram pequenas situações do dia a dia que, pouco a pouco, foram ganhando um peso que nunca deveriam ter tido, até se tornarem suficientes para afastar uma mãe da sua filha.

A mãe relata que o pai alienador iniciou aquilo que descreve como uma “campanha de transformação”. Um processo lento e subtil, muitas vezes difícil de reconhecer enquanto está a acontecer, mas muito eficaz a moldar a forma como a criança passa a ver as pessoas à sua volta.

Através da repetição de comentários, insinuações e histórias cuidadosamente escolhidas, foi sendo construída uma imagem negativa do padrasto, associada a ideias de perigo, erro ou ameaça. Este tipo de manipulação não acontece de forma direta. Não se trata de impor ideias, mas de repetir mensagens que, com o tempo, vão cansando, confundindo e fragilizando a criança. Não é algo dito de uma só vez, mas repetido muitas vezes, até que a criança comece a acreditar.

A filha é exposta, de forma repetida, a mensagens que põem em causa a confiança no padrasto. Com o tempo, começa a absorver esse discurso como se fosse seu, passando a vê-lo através do medo e da dúvida. Nada aconteceu de forma repentina. Pelo contrário, a repetição foi essencial para que o processo resultasse. Ao ouvir as mesmas histórias sobre o padrasto vezes sem conta, a criança foi mudando a forma como recordava e sentia, ajustando as suas emoções à versão que lhe era apresentada. Aos poucos, a lealdade ao pai foi-se fortalecendo, enquanto a confiança no padrasto se foi perdendo.

Com o tempo, os sinais começaram a surgir. A mãe recorda que a filha “começou a chegar a casa a fazer perguntas estranhas”. Perguntas que mostravam inquietação e confusão, sinais de um cansaço emocional que ia crescendo. Não eram dúvidas normais da idade, mas........

© Observador