menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Maduro caiu de podre e o Ocidente não está bem

13 7
10.01.2026

Abundam as pontas soltas depois do raide de forças especiais norte-americanas na Venezuela, mas podemos dar algumas coisas como certas. Caiu o ditador Nicolás Maduro, cuja repressão, desde 2013, forçou mais de 7 milhões de venezuelanos, inclusive muitos luso-venezuelanos, a fugir. Derrubar um ditador é um bom primeiro passo, mas é diferente de consolidar uma democracia pluralista e próspera. Maduro era tão incompetente que mesmo dentro do regime venezuelano parece ter havido quem tenha facilitado a sua captura. Mais chocante – mas não inesperado – do que Trump não ter prestado contas a uma ONU bloqueada ou ao Congresso, é não ter mostrado, até ver, interesse em libertar presos políticos ou em apoiar uma transição liderada pela oposição democrática venezuelana legitimada pelas eleições de 2024. É certo, portanto, que, para já, o regime ditatorial chavista continua, aparentemente com o acordo tácito da Administração Trump preocupada sobretudo com o petróleo.

Mais uma intervenção na América Latina?

Este raide norte-americano foi muito bem executado do ponto vista tático militar. Ao contrário do que ouvi dizer é pouco provável que haja outras forças militares que pudessem seguir o precedente, sobretudo com esta eficácia e aparente facilidade. Aliás, a Rússia tentou algo parecido, em Kiev, em Fevereiro de 2022, contra Zelensky, e falhou. Também é verdade que os EUA, como qualquer grande potência, tem uma longa história de intervenções militares, um uso da força caraterizado pela enorme assimetria de meios. Mas desde 1945 que, nem os EUA, nem qualquer outra grande potência tinham usado ou ameaçado usar a força militar para conquistar e anexar território. Foi preciso esperar por Putin e Trump para voltarmos a esse ponto. Casos como Israel ou Marrocos são questionáveis, mas distintos, trata-se de países que vivem desde a independência com fronteiras contestadas. O número das intervenções armadas norte-americanas depende de como se faz as contas, mas Alexander Downes numa obra recente fala em 35, com o objetivo de mudar regimes vistos como hostis, a maioria das quais, mais de 20, nas Américas, mais precisamente na América Central e nas Caraíbas.

É, no entanto, também um erro dizer que isto é algo normal e permanente. Fala-se da doutrina Monroe de 1823, mas ela foi, durante o século XIX, sobretudo defensiva e declarativa. Tratava de afirmar que as Américas deviam ser para os americanos e que a diplomacia norte-americana era hostil a intervenções armadas de potências europeias no “seu” continente, mas os jovens EUA não tinham grandes meios para impor a sua........

© Observador