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A encruzilhada política e o fim da luta de galos

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21.03.2025

É surpreendente o modo como a presente crise política tem vindo a ser discutida por estes dias. À primeira vista, dir-se-ia tratar-se apenas de um acidente, inesperado e imprevisível, decorrente da inépcia do Primeiro-Ministro para lidar com questões relativas à sua vida privada, profissional e familiar. Os habituais comentaristas da imprensa escrita e televisiva, especializados em dizer às pessoas o que devem pensar, apressam-se, com muito poucas excepções, a sugerir que assim é. Tratar-se-ia apenas de um episódio. Um episódio infeliz, é certo, mas um episódio. As eleições «que ninguém deseja» surgem como uma simples consequência do sucedido. Consequência que ninguém queria, mas ninguém conseguiu evitar. Por isso, todas as atenções se concentraram primeiro na análise da elevadíssima discussão com que os parlamentares de São Bento ilustraram o debate público nacional, aquando da votação da moção de confiança apresentada pelo Governo. Uma sessão parlamentar talvez ao nível dos jogos de bluff eventualmente praticados no Casino de Espinho. Depois, focaram-se nas aventuras e desventuras empresariais de Primeiro-Ministro e descendência, ou nas explicações que deu ou não deu ao país. E assim continuam. Ou seja, tudo é conduzido para discutir assuntos que só teriam algum interesse se houvesse entre nós algum Eça capaz de os perpetuar nas Farpas, o que, infelizmente, não é o caso. Pelo meio perde-se o essencial. E o essencial é a encruzilhada em que politicamente nos encontramos, para a qual caminhámos de forma consistente na última década.

É, pois, essencial alargar o olhar e considerar a nossa situação actual em perspectiva histórica. A seguir ao 25 de Abril, depois da perseguição, prisão e exílio de pensadores e militantes políticos da direita, e da concomitante integração de comunistas e extrema-esquerda, cujas esperanças revolucionárias se frustraram em Novembro de 1975, a democracia portuguesa estabilizou-se como uma oligarquia de poucos partidos. Para evitar regressar ao caos da Primeira República, tornando a democracia previsível e estável, o sistema centrou-se no chamado........

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