O (Oil &) Gás em Moçambique e o seu papel na transição energética
Dotado de um potencial energético de assinalável expressão, Moçambique reúne condições muito específicas, que permitem suprir não apenas as suas necessidades energéticas internas, mas também contribuir de forma decisiva para o abastecimento de toda a região da África Subsariana e projetar o país como um potencial fornecedor estratégico para mercados internacionais, especialmente da Ásia.
No entanto, enquanto Estado em desenvolvimento e signatário do Acordo de Paris, enfrenta uma pressão crescente de avançar para uma economia de baixo carbono, alinhando-se com os objetivos globais de descarbonização.
A questão que se coloca é a de saber de que forma um país com níveis tão elevados de pobreza energética, ainda com faltas essenciais de rede de distribuição e de acesso generalizado à população, pode conciliar a exploração dos seus recursos naturais com os compromissos internacionais em matéria ambiental, e de que modo as suas reservas de gás natural podem funcionar (ainda que, ou pelo menos) de forma transitória, como um instrumento de desenvolvimento sustentável e não como um obstáculo à descarbonização.
No presente artigo procuramos abordar, de forma breve, o contexto do oil & gás em Moçambique, o estado atual das energias renováveis neste país, a relevância jurídica e estratégica do gás natural na transição energética, e os desafios e oportunidades que se colocam ao país nas próximas décadas.
O Desenvolvimento Sustentável em África – em especial em Moçambique
A título de introdução, cumpre fazer referência aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) em África e da Agenda 2063 da União Africana, cujo objetivo principal é apoiar os governos africanos, organizações não-governamentais, instituições regionais, organizações de pesquisa e desenvolvimento (I&D), entre outros, na abordagem da questão das alterações climáticas e relevantes desafios conexos.
De acordo com o Relatório sobre o Desenvolvimento Sustentável em África 2024, África demonstrou uma resiliência e um empenho notáveis na luta contra as alterações climáticas (Objetivo 13), e continuam a ser envidados esforços para melhorar a redução do risco de catástrofes, embora o número de países que estabeleceram estratégias nacionais e locais de redução do risco de catástrofes continue a ser de apenas 29 em 54, desde 2015. O financiamento da ação climática em África torna-se fundamental, apesar de apenas 29,5 mil milhões de dólares, dos 2,8 biliões de dólares necessários entre 2020 e 2030, terem sido mobilizados para que os países africanos implementem os seus Nationally determined contributions (NDC) ao abrigo do Acordo de Paris.
Especificamente em Moçambique, em 2021 foi aprovado o “Programa Nacional Industrializar Moçambique” (PRONAI: 2021-2035), alinhado com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, a Estratégia de Industrialização da SADC 2015 – 2063, a Estratégia Nacional de Desenvolvimento (END) e a Política e Estratégia Nacional de Investimento.
O PRONAI assenta em componentes fundamentais para a dinamização da industrialização tais como o “desenvolvimento de infraestruturas, melhoria do ambiente de negócios, aprimoramento do conteúdo local e capacitação do sector Público e Privado”.
A perspetiva, até 2030, é de conseguir melhorar a balança comercial de Moçambique, através (i) da substituição das importações, de 0% a 15%; (ii) o aumento das exportações de produtos industriais, em cerca de 15%; (iii) a garantia do crescimento sustentado do peso da indústria transformadora, aumentando a sua contribuição no PIB, de 8.5% para 14%; e (iv) a geração de mais postos de trabalho na indústria transformadora, em mais de 100%.
Verifica-se, no entanto, que os relevantes projetos do gás no norte de Moçambique, na Bacia de Rovuma, que atraíram investidores internacionais como a EXXON, a TOTAL e a ENI, para além de outras companhias de oil & gas da Ásia e do Médio Oriente, tem posto uma enorme pressão no tipo de desenvolvimento pretendido, na sustentável exploração dos recursos naturais e na capacitação do tecido económico e empresarial local.
As operações de oil & gas em Moçambique são já sujeitas a várias autorizações e obrigações ambientais legalmente estabelecidas, para além das obrigações que cada um dos investidores já tem internamente e por pressão dos seus acionistas e stakeholders, mas será........
