menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Pode o ódio ser filho da tolerância?

17 0
30.03.2026

Pode o ódio ser filho da tolerância? Por vezes, parece que sim, mas não pode. É a ignorância que gera ódio quando esbarra na tolerância. Todavia, está por inventar mezinha eficaz que limpe de ignorância a nossa sociedade. Assim, mesmo tendo opiniões alicerçadas e firmes, será razoável não nos julgarmos o bem a combater o mal, independentemente do lado que consideramos bom (excluam-se Sauron, Voldemort, o Imperador Ming e todos quantos vejam virtude no mal).

A reversão da lei sobre identidade de género é uma vitória do mal, pois só serve para causar sofrimento e, em casos extremos, empurrar para o suicídio pessoas que não fazem mal a uma mosca e apenas querem ser quem são: ninguém é trans por capricho; ninguém trilha esse caminho por imposição de terceiros; ninguém o fazia, no contexto de legalidade que tínhamos, sem rigoroso acompanhamento clínico.

É uma mudança resultante do oportunismo de políticos e partidos, camuflados por uma moral falsamente cristã, porque assente em ódio em vez de amor, porque construtora de muros e não de pontes, porque fechada em si e negadora da alteridade. A questão da identidade de género tem respaldo científico e não ideológico. Posso afirmá-lo de forma direta, por haver nas minhas relações pessoas, de campos políticos opostos, com filhos trans que apoiam incondicionalmente. "Ideologia de género" é uma patranha, tal como chamar "woke" a tudo o que mexe é uma muleta dispensável: o termo nasceu da luta pelos direitos civis nos EUA, há quase cem anos, não do fanatismo identitário dos nossos dias.

Vamos ao reverso da medalha. No caso da identidade de género, os que querem promover direitos acabam por vezes a gerar desconfiança, ou mesmo rancor, ao adotarem uma postura condescendente, tratando quem pensa diferente como alguém que precisa de aprender. Assim rezava uma campanha, há poucos anos, fazendo das pessoas parolas e estultas. Isso é desistir do debate e escolher a guerra. Tal como fazem os ativistas de todo o Mundo que espalham pelas ruas a frase "no one is illegal" (ninguém é ilegal), supostamente defendendo todos os migrantes e refugiados. Pode ser uma coisa bonita e libertária, própria de "soixante-huitards" serôdios, mas é uma coisa perversa. Como país de acolhimento que agora somos, e cientes de que precisamos dos que vêm de fora, devemos querê-los legais, por contraponto a ilegais ou indocumentados: integrados em matéria de direitos e deveres, até por ser a única forma de preservar o nosso estado social.

Mesmo que, como muitos portugueses que adquiriram direitos na diáspora, venham a votar um dia nos antimigrantes das terras deles.


© Jornal de Notícias