Em 2024 paira sobre a Europa e o mundo uma nuvem sombria que só se dissipará no mês de novembro se os democratas americanos ganharem as eleições presidenciais aos republicanos. Tudo o que acontecer ao longo de 2024 contribuirá, diretamente ou indiretamente, para esse desfecho. E os acontecimentos são deveras ameaçadores. Senão vejamos.

1. Os impactos das alterações climáticas

Os impactos das alterações climáticas continuarão a fazer-se sentir com efeitos assimétricos devastadores sobre países e populações. As desigualdades continuarão a crescer assim como o número de refugiados climáticos. O problema estrutural das alterações climáticas vai atormentar-nos durante todo o século XXI com consequências inimagináveis. As soluções propostas não parecem estar à altura dos problemas. As chamadas transições verdes não são suficientes.

2. A duração e o impacto da guerra na Ucrânia

A guerra na Ucrânia é apenas uma parte do problema, a adesão à União Europeia e à Nato são os acontecimentos que se seguem. No conjunto estes três eventos vão acompanhar-nos ao longo da década de 2030, pelo menos. No mesmo período vamos assistir a mudanças geopolíticas significativas na Eurásia e no Grande Médio Oriente cujas consequências não somos capazes de antecipar, sobretudo, os impactos sobre a própria União Europeia.

3. As eleições nos EUA e o mundo multipolar em formação

Como dissemos, as eleições nos EUA são o fator geoestratégico e geopolítico mais determinante do ano de 2024 e, mesmo, dos anos seguintes, sem, todavia, esquecer as eleições em Taiwan já em janeiro. De resto, creio mesmo que no mercado geopolítico de 2024 todos os movimentos das grandes potências serão determinados pelos efeitos que possam desencadear nos resultados daquelas eleições. Seja como for, em 2024 continuaremos a assistir à formação de um mundo multipolar.

4. A nova geografia energética e a geopolítica das matérias raras

Uma nova geografia energética está em curso em direção às energias renováveis, mas em formação está, também, uma geopolítica muito sensível relativa às matérias raras. As duas geopolíticas estão, de resto, profundamente interligadas dadas as suas interconexões mundiais no plano da exploração, mineração e industrialização dessas matérias-primas. É mais um fator que se junta ao mundo multipolar em formação.

5. Os desafios insondáveis da inteligência artificial

A realidade aumentada e virtual, as máquinas inteligentes, os ambientes simulados e as novas linguagens cibernéticas da inteligência artificial colocam-nos, verdadeiramente, desafios insondáveis cujos impactos nem sequer imaginamos. Os avanços são imparáveis e uma nova geração de desigualdades estruturais entre países e populações está em curso, assim como uma nova indústria dos desastres do conhecimento (Paul Virilio).

6. A guerra na Palestina e a turbulência política no Grande Médio Oriente

A guerra atual entre a Palestina e Israel é mais um episódio dramático de uma guerra que mergulha na história longa do tempo e cujo fim ninguém sabe prever, mas, porventura ainda mais dramático, é a escalada da turbulência geopolítica no Grande Médio Oriente como se estivéssemos, desde já, a antecipar as futuras guerras do petróleo e o fim de uma civilização.

7. A guerra cibernética, o terrorismo informático e a segurança das redes

As guerras irão, elas também, passar por um processo de desmaterialização. As indústrias da guerra estão, de resto, a fazer essa adaptação muito rapidamente. As guerras do futuro já aí estão e muitas surpresas estão-nos seguramente reservadas. Ao mesmo tempo, vamos assistir ao crescimento das guerras sujas levadas a cabo por países proxy, grupos de mercenários e hackers que, de certo modo, irão proceder a uma certa privatização das guerras do futuro.

8. O impacto dos fluxos migratórios e o endurecimento das democracias

A consequência mais visível e mais imediata destas disrupções globais é o crescimento errático dos fluxos migratórios e o endurecimento de muitas democracias ocidentais que ainda não souberam encontrar um meio termo para lidar com estes fluxos. Por outro lado, a diminuição da ajuda internacional à cooperação e desenvolvimento e os novos realinhamentos geopolíticos impedem que o problema seja abordado devidamente nos países de origem desses fluxos.

9. As incertezas da economia internacional e europeia

Os diversos pactos – climático, ecológico, alimentar, migratório, digital – já assinados no plano internacional e europeu e as exigências implicadas pelas suas transições setoriais e globais criam diferentes velocidades de ajustamento e adaptação e muita fricção no comércio internacional. Para lá das guerras e sanções aplicadas temos, agora, um novo corpo de regras e normas que decorrem daqueles pactos e que são usados amiúde nas disputas geopolíticas, como se constata nas relações entre os EUA e a China.

10. A saúde política da União Europeia e o futuro do projeto europeu

Todos os impactos e efeitos assimétricos referidos podem ser observados no território da União Europeia pelo que nos arriscamos em 2024 a ver crescer o número de Estados membros relutantes. No plano político, continuaremos algures entre o intergovernamentalismo relutante e o federalismo à la carte, num equilíbrio político precário e dotados de um orçamento europeu muito limitado e cada vez mais assistido por mecanismos e fundos exteriores à lógica comunitária aprovados numa base ad hoc e sempre justificados pela excecionalidade das conjunturas de emergência e urgência.

Nota Final

Perante a incerteza geopolítica de tantas ocorrências durante o ano, 2024 será, tudo leva a crer, um ano de transição para a União Europeia em que fará a digestão de vários atos eleitorais, incluindo o ato da sua própria constituição, as eleições para o Parlamento Europeu, e isto enquanto aguarda pelo mês de novembro e as eleições americanas. Se assim for, confirma-se a tese já antiga de que a União Europeia continua a ser um gigante económico e um anão geopolítico. Para acompanhar de perto.

QOSHE - Europa 2024 - António Covas
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Europa 2024

16 0
08.01.2024

Em 2024 paira sobre a Europa e o mundo uma nuvem sombria que só se dissipará no mês de novembro se os democratas americanos ganharem as eleições presidenciais aos republicanos. Tudo o que acontecer ao longo de 2024 contribuirá, diretamente ou indiretamente, para esse desfecho. E os acontecimentos são deveras ameaçadores. Senão vejamos.

1. Os impactos das alterações climáticas

Os impactos das alterações climáticas continuarão a fazer-se sentir com efeitos assimétricos devastadores sobre países e populações. As desigualdades continuarão a crescer assim como o número de refugiados climáticos. O problema estrutural das alterações climáticas vai atormentar-nos durante todo o século XXI com consequências inimagináveis. As soluções propostas não parecem estar à altura dos problemas. As chamadas transições verdes não são suficientes.

2. A duração e o impacto da guerra na Ucrânia

A guerra na Ucrânia é apenas uma parte do problema, a adesão à União Europeia e à Nato são os acontecimentos que se seguem. No conjunto estes três eventos vão acompanhar-nos ao longo da década de 2030, pelo menos. No mesmo período vamos assistir a mudanças geopolíticas significativas na Eurásia e no Grande Médio Oriente cujas consequências não somos capazes de antecipar, sobretudo, os impactos sobre a própria União Europeia.

3. As eleições nos EUA e o mundo multipolar em formação

Como dissemos, as eleições nos EUA são o fator geoestratégico e geopolítico mais determinante do ano de 2024 e,........

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