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Um avivamento cristão também está em curso no Brasil?

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02.01.2026

“Há no homem um abismo infinito que só pode ser preenchido por Deus.” (Blaise Pascal, Pensées)

Esta é ao mesmo tempo a minha primeira e a minha última coluna. Mas o leitor não carece de ficar alarmado. É a primeira de 2026, que começa precisamente hoje, e a última deste primeiro mês do novo ano, pois entro em férias agora no próximo dia 5 – um descanso mais que necessário, depois de um ano muito intenso, tanto do ponto de vista pessoal quanto político. Retomo a coluna em fevereiro e, nesse meio tempo, deixo-os com a presente reflexão sobre um fenômeno que, já detectado por intelectuais e formadores de opinião no exterior, parece ainda fora do radar da intelligentsia brasileira, embora a sua manifestação local seja particularmente digna de nota.

Refiro-me àquilo que Ayaan Hirsi Ali – intelectual nascida numa família muçulmana da Somália, depois convertida ao neoateísmo e, hoje, ao cristianismo – chamou de “avivamento cristão” em artigo para o The Spectator intitulado “Está em curso um avivamento cristão”, no qual celebrava o seu segundo Natal como cristã. O título desta coluna é, portanto, inspirado no de Hirsi Ali.

No artigo da The Spectator, Hirsi Ali descreve um movimento crescente de retorno à religião cristã no Ocidente, especialmente entre jovens, intelectuais e figuras públicas que antes se identificavam com o secularismo. Após décadas de declínio da prática religiosa e de confiança quase exclusiva em soluções pretensamente racionais, terapêuticas ou políticas, muitos passaram a reconhecer os limites do secularismo para oferecer sentido, coesão social e fundamentos morais duradouros. Ela observa que crises como o enfraquecimento da família, a solidão, o aumento da ansiedade e a radicalização ideológica criaram um terreno propício para essa reaproximação com a fé.

Esse diagnóstico, longe de se restringir a impressões subjetivas, encontra eco em uma série de trajetórias intelectuais e existenciais recentes, mapeadas por Peter Savodnik em um longo ensaio publicado uma semana depois no The Free Press, com o título “Como intelectuais encontraram Deus”. O que emerge desse levantamento passa longe de um simples modismo espiritual ou nostalgia romântica. Trata-se do reconhecimento tardio de que o projeto secular moderno, ao tentar erradicar o cristianismo da vida pública e da imaginação moral do Ocidente, acabou por gerar uma sucessão de substitutos espirituais muito mais agressivos, dogmáticos e desumanizadores, precisamente por se apresentarem como não religiosos.

Savodnik abre o texto falando do escritor Matthew Crawford, cujo percurso intelectual é bastante ilustrativo. Formado no coração da academia secular, seduzido em juventude pela crítica nietzschiana ao cristianismo e perfeitamente integrado ao ethos intelectual moderno, Crawford acabou descobrindo – não por via de argumentos abstratos, mas por meio de uma experiência concreta de comunidade, amor (sua esposa foi fundamental em sua conversão) e beleza – tudo aquilo que a modernidade lhe negara: a percepção de uma ordem moral objetiva que precede e julga o indivíduo. Ao contrário do que sugere o secularismo militante, sua conversão ao anglicanismo não representa uma capitulação da razão, mas o reconhecimento de seus limites.

Onde o cristianismo recua, não se instala o vazio, mas outras formas de religiosidade – mais ilusórias, mais violentas e menos conscientes de si mesmas

Esse padrão se repete, com variações, em outras figuras analisadas por Savodnik. O escritor irlandês Paul Kingsnorth, após transitar pelo ambientalismo radical, pelo budismo zen e pelo neopaganismo, encontrou na Ortodoxia cristã aquilo que nenhuma espiritualidade alternativa lhe oferecera: uma síntese entre criação, transcendência e sacrifício. Sua........

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