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A Alemanha e o impensável

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Helmut Kohl repetia que “es gibt keinen deutschen Sonderweg”: que não existia um caminho alemão separado. Não era apenas profissão de fé europeia do chanceler da reunificação. Era uma conclusão tirada da própria História da Alemanha: depois de duas guerras mundiais, da divisão e, por fim, da reunificação, a nova Alemanha deveria encontrar a sua força na democracia liberal, na previsibilidade, e numa Europa que funcionasse em simultâneo como destino e limite. Durante mais de três décadas, essa ideia pareceu suficientemente sólida para deixar de ser discutida. Talvez seja por isso que o que está agora a acontecer na Alemanha merece muito mais atenção do que tem recebido.

No dia 6 de setembro, a Alemanha pode atravessar uma fronteira sem que nada pareça mudar. A Alternativa para a Alemanha (AfD) pode vencer as eleições na Alta Saxónia com mais de 42% dos votos. Os restantes partidos poderão encontrar uma solução parlamentar que preserve a Brandmauer, o cordão sanitário que durante anos impediu qualquer cooperação com a extrema-direita. Sven Schulze poderá continuar ministro-presidente e, na manhã seguinte, as instituições da República Federal funcionarão exatamente como na véspera. Seria, contudo, um erro concluir que nada aconteceu.

Há ainda um paradoxo revelador: Sahra Wagenknecht admite que o seu partido BSW (extrema-esquerda) possa viabilizar, através da abstenção, a eleição de um ministro-presidente da AfD, recusando a exclusão automática de um partido que ultrapasse os 42% dos votos. A acontecer, a Alemanha poderia assistir à ironia histórica de uma força de extrema-direita chegar ao poder com a tolerância de um partido nascido da esquerda radical, confirmando que a nova clivagem política alemã já não se desenha apenas entre esquerda e direita, mas, cada vez mais, entre sistema e rutura.

O facto politicamente extraordinário destas eleições não é a possibilidade de a AfD governar, mas a dimensão do eleitorado alemão que já aceita que governe. A última sondagem da Infratest atribui-lhe 42%, praticamente o dobro dos 22% da União Democrata-Cristã (CDU). Mais revelador ainda, 42% dos eleitores da Alta Saxónia dizem preferir um Executivo liderado pela AfD, contra 41% que escolheriam um encabeçado pelos democratas-cristãos. Ulrich Siegmund, candidato da AfD, alcança 39% numa hipotética eleição direta para ministro-presidente, apenas dois pontos atrás de Schulze.

Martin Schroeder picture alliance /Chromorange

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