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Arménia: atenção ao ‘backsliding’ democrático no coração do Cáucaso

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As geografias que abrem os noticiários deixam pouco espaço para análises que aparentem impactar em menor escala os destinos dos contribuintes europeus. Se a ameaça foi até há pouco existencial e bélica — com a invasão russa da Ucrânia a levar o dispositivo securitário europeu a ponderar um exército comum —, a política externa frenética da administração Trump transferiu essa ameaça para o mercado energético e dos hidrocarbonetos, e para a possibilidade de as condições de vida se agravarem por todo o mundo, incluindo na UE.

Venho falar-vos, porém, de um país que não impacta o futuro da UE no imediato, mas que tem potencial para ser mais um desafio num futuro alargamento — se o caminho de Bruxelas for mesmo o da expansão para os Balcãs, bloco de leste e Cáucaso (tenho as minhas reticências quanto à vontade real de alargamento). Esta é uma nação que vive sob o espetro pós-soviético, intimamente ligado ao sentimento das nações que se autonomizaram de Moscovo, tal como a Ucrânia, para além de partilhar fronteira com o Irão. A receita para a desgraça geopolítica.

Falo-vos da Arménia, e da tentativa corajosa do primeiro-ministro Nikol Pashinyan de mitigar os laços com a Rússia durante a última semana.

Pequeno país, o primeiro a adotar o cristianismo como religião oficial, a Arménia encontra-se, desde a Primeira Guerra Mundial e do simultâneo genocídio — contestado pelas hostes otomano-turcas —, enclausurada numa vizinhança particularmente instável. Os arménios povoam a faixa de terra que impede a reunião territorial entre a Turquia e o Azerbaijão, povos unidos pela língua e por culturas semelhantes.

Se o maior inimigo arménio do início do século XX foram os turcos, a partir dos anos 50 — com especial incidência desde o conflito em Nagorno-Karabakh — o inimigo n.º 1 passou a ser o Azerbaijão. A tensão nas zonas militarizadas da fronteira com ambos os Estados é palpável. A sul, o Irão mantém uma coexistência pacífica com Erevan, mas o seu regime teocrático repressivo é fonte permanente de instabilidade. E os vizinhos culturalmente mais próximos — os georgianos — estão na pole position na corrida à adesão europeia. Por muito que a amizade entre arménios e georgianos seja a mais sólida do Cáucaso, uma eventual expansão da UE para a região está longe de significar a adesão da Arménia. Há uma lista de pretendentes, incluindo a Geórgia, que se apresentam mais preparados e sedentos dessa adesão, o que trava as aspirações europeístas de curto prazo em Erevan.

Como se não bastasse, Pashinyan entrou na última semana numa pequena troca de galhardetes com Vladimir Putin, depois de prometer abandonar a esfera de influência regional russa através do cessar de ligações institucionais com organizações lideradas pelo Kremlin — a União Económica Eurasiática e a Organização do Tratado de Segurança Coletiva. Seria um tópico sem grande interesse, não fossem outros vetores que tornam o futuro do Cáucaso particularmente volátil.

A Arménia procura consolidar a sua democracia, e essa foi a bandeira que levou Pashinyan ao poder. Uma guinada para oeste. Uma ocidental praia arménia, que permita fugir dos interesses russos — que já se demonstraram ineficazes em defender as pretensões do país, ao permitirem a passagem de facto e de jure do Nagorno-Karabakh para mãos azeris há três anos. Mas há uma pedra no sapato da autonomia estratégica arménia: a dependência energética. Tal como na Hungria e na Ucrânia, as infraestruturas energéticas arménias de larga escala foram criadas no período soviético e foram concebidas para tratar a matéria prima proveniente da Rússia. É uma dupla dependência: não só se importam esses produtos, como não se podem procurar alternativas sem investimento infraestrutural milionário. Milhões que vêm, invariavelmente, da… Rússia.

A imagem de Pashinyan saiu fragilizada com a perda definitiva do Artsakh, após quatro décadas de morte no Nagorno-Karabakh — perdas que se choram diariamente em todo o território. O moto do “finalmente temos paz”, com que Pashinyan procurou justificar o armistício com o Azerbeijão, caiu mal junto do eleitorado mais velho, que já pondera votar, nas próximas eleições de junho, num dos três candidatos ligados ao aparelho russo ou autocrata: Karapetyan, Tsarukyan ou Kocharyan. Se parece improvável uma coligação imediata entre os três, a paulatina perda de confiança no líder pró-ocidente faz adivinhar tentativas de coligação nos próximos anos — tal como já aconteceu à escala regional em Gyumri, a zona etnicamente mais próxima da Rússia. Uma coligação pró-russa seria o recrudescer do espetro da “ucranização” da Arménia.

A Arménia está amordaçada entre a dependência energética e o sonho da autonomia em relação ao Kremlin. A eleição de Pashinyan foi um raio de esperança de consolidação de uma democracia de índole social-democrata. Esse raio está a dissipar-se. Com a contestação a crescer, ganha corpo a ideia de que este regime não veio para ficar. É apenas uma intermissão até à próxima vaga de projeção de poder russo ou, pior, até um ímpeto beligerante azeri que coloque em causa a existência dos arménios como país e como etnia.


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