Os laços infinitos que constituí com a escrita
Convivo, há quase cinco anos, com um linfoma crônico que resolveu fazer morada em meu corpo, movimentar-se pelo sangue, criar lágrimas no meu coração. Entrou arrombando a porta da alma, escancarando as janelas fechadas das dores. Desafiou uma finitude regada por desejos realizados e outros (ainda) não concretizados, por dores e frustrações, por compromissos e elos infinitos de amor. A doença chega como um passaporte carimbado para o tempo do término da vida – paradoxalmente, sem data e hora marcadas.
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Nesse período, permiti criar espaço para a “presença ausente” da morte. Percebi a importância de se falar sobre a finitude e de se construir a arte da espera para a chegada da infinitude. E na empática dor estampada no sofrimento alheio, resolvi escrever um livro com relatos de pessoas diagnosticadas com doenças linfoproliferativas – grupo de doenças hematológicas. Entre julho de 2024 e agosto de 2025, entrevistei 19 pessoas com cânceres oriundos de doenças hematológicas.
A luta esperançosa pela cura, a busca de uma fé que lhes trouxesse força e coragem, e a preocupação com os filhos, os esposos e outras pessoas queridas permeavam todas as conversas. Desse grupo generoso de pessoas que abriram suas vidas para mim, 6 já morreram. Alguma unicidade nas histórias de vida e de morte? Apenas uma única:........
