Opinião | A devastação cultural da Venezuela
No século passado, a Venezuela foi um dos polos artísticos mais dinâmicos da América Latina. Havia museus e centros culturais, crítica de arte profissional, investimento e políticas estruturadas, mecenas e colecionismo privado, mercado de arte ativo, artistas atuantes, além de uma integração exemplar entre arte, arquitetura e espaço público, uma experiência estética cotidiana rara, até mesmo em países centrais. Não era uma periferia cultural: existia como país confiante de seu lugar no mundo, dialogando com a Europa e os Estados Unidos, sem complexo de inferioridade.
Basta lembrar o papel essencial exercido pelo Museu de Arte Contemporânea de Caracas (MACC), criado e dirigido pela memorável Sofía Ímber, que, durante décadas, reuniu exposições e um acervo de altíssimo nível. Grandes nomes como Jesús Rafael Soto e Carlos Cruz-Diez, além de integrarem suas obras cinéticas ao espaço urbano de seu país natal, o representaram nas maiores e mais importantes mostras do mundo.
Essa vitalidade encontrou eco nas Bienais de São Paulo. Pudemos testemunhar de perto a força da presença venezuelana em 1985 e 1987. Os artistas – trazidos à 18.ª edição pelo poeta e crítico de arte Roberto Guevara e à 19.ª pelo colecionador Hans Neumann, criador da fundação que levava seu nome – possuíam um pensamento plástico contemporâneo, rigoroso e........
