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“Quantas legiões tem o Papa?” – O velho desdém de Estaline

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17.04.2026

A história tem destas ironias persistentes: quando Winston Churchill, primeiro-ministro inglês, convidou o Papa Pio XII a intervir no tabuleiro geopolítico da Segunda Guerra Mundial, Estaline, líder da União Soviética reagiu com desdém, perguntando quantas divisões ou legiões de soldados tinha o Papa. A frase, tantas vezes citada, tornou-se símbolo de uma incompreensão recorrente: a de reduzir o poder à sua expressão militar, ignorando a força moral, espiritual e cultural.

Hoje, perante os recentes atritos entre a Casa Branca de Donald Trump e o Vaticano do Papa Leão XIV, aquela velha pergunta de Estaline ecoa, ainda que sob novas formas. O conflito não é de tanques nem de fronteiras, mas de narrativas, valores e legitimidades.

Trump representa uma visão de poder assente na soberania nacional, na força económica e na capacidade de imposição política. O seu discurso – direto e, por vezes, provocador – tende a ver instituições multilaterais e autoridades morais globais como obstáculos ou, no mínimo, como interlocutores secundários. Já o Papa Leão XIV, herdeiro de uma longa tradição diplomática da Santa Sé, insiste num horizonte universal: dignidade humana, acolhimento, justiça social, paz. O choque era previsível.

Mas o que talvez surpreenda alguns observadores é que, tal como no tempo de Pio XII, a pergunta decisiva não é quantas “legiões” tem o Papa – porque continua a não ter nenhuma – mas quantas consciências consegue mobilizar. A Igreja Católica não dispõe de exércitos, mas possui algo que escapa às métricas convencionais do poder: uma rede global de fiéis, instituições, influência........

© Diário do Minho