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Antes da culpa, a bondade

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01.08.2026

Há uma deformação subtil do cristianismo que começa quando se fala do mal antes de falar do dom. A existência passa então a ser narrada a partir da dívida, da falta e da suspeita. O crente aprende que deve vigiar-se, corrigir-se e provar continuamente que merece permanecer diante de Deus. A fé, em vez de abrir um espaço de liberdade, transforma-se numa contabilidade moral; e Deus, em vez de ser reconhecido como fonte de vida, aparece como instância de controlo.

A narrativa bíblica começa, porém, noutro lugar. Antes da queda, há criação. Antes da acusação, há bênção. Antes de qualquer resposta humana, há uma palavra que faz existir e reconhece a bondade do que existe: «Deus viu que era muito bom» (Gn, 1,10). O mal é real, fere e desfigura; seria ingénuo negá-lo ou minimizar as suas consequências. Mas não pertence à origem. Não é a matéria de que somos feitos, nem a verdade mais profunda da pessoa e do mundo. A bondade é mais antiga do que........

© Diário do Minho