Acaba de ter lugar mais uma reunião dos líderes europeus. O objetivo seria definir o posicionamento da UE perante as rivalidades económicas que a China e os EUA têm estado a adotar em relação à Europa. A agenda incluía ainda uma análise dos desafios que a admissão de novos membros poderá acarretar, a integração dos mercados europeus de capitais e as indústrias de defesa.

Enrico Letta, primeiro-ministro de Itália em 2013-2014, preparara um documento de reflexão. Também durante a semana, um outro italiano, Mario Draghi, o antigo presidente do Banco Central Europeu e igualmente antigo primeiro-ministro do seu país (2021-2022), havia falado sobre o futuro da União. Estas duas personalidades, que se movem politicamente nas esferas do centro europeu, têm bastante credibilidade. São nomes que poderão também estar em cima da mesa quando se discutir quem irá ocupar o cargo agora preenchido por Charles Michel. Não creio, porém, que possam ter grandes hipóteses. A aposta mais realista deve concentrar-se em António Costa. Tem, logo à partida, três trunfos de peso: foi primeiro-ministro durante muitos anos, contrariamente aos dois italianos, ganhou uma enorme respeitabilidade junto dos seus pares, que são quem irá decidir sobre a presidência do Conselho Europeu, e conta com o apoio do centro-esquerda, o que permitiria obter um equilíbrio no topo da UE, tendo em conta que Ursula von der Leyen provém do centro-direita.

A futura liderança da UE deverá ser capaz de lidar com Donald Trump, caso se confirmem as sondagens atuais, que o dão como hipotético vencedor da eleição americana. A acontecer, será um repto enorme, numa conjuntura internacional já excecionalmente complicada, com Vladimir Putin, Xi Jinping e outros personagens a atacar os nossos interesses e a estabilidade global, em paralelo com as loucuras, os riscos e os perigos que Trump não se coibirá de criar. A tudo isto, haverá que acrescentar uma situação institucional bastante complexa, se os resultados das eleições para o Parlamento Europeu, a 9 de junho, permitirem uma representação muito significativa dos partidos ultranacionalistas e da direita extrema. E sem esquecer que também está em jogo a função de secretário-geral da NATO. Espera-se que seja um político arguto e com uma personalidade forte.

A reunião acabou por se focar essencialmente na situação no Médio Oriente. A Europa não tem força suficiente para influenciar o curso dos acontecimentos nessa região. Deve, isso sim, apelar à contenção e insistir na resolução dos grandes problemas que estão na origem das crises aí existentes. Ou seja, Gaza e a sua tragédia humanitária, o futuro da Palestina, a cooperação entre os povos, o respeito pelas minorias, a neutralização das milícias armadas e dos grupos terroristas. Defendo que a UE deve passar a adotar uma posição imparcial e fazer pressão junto dos principais protagonistas na região, assim como em Washington e em Nova Iorque, nas Nações Unidas, para sublinhar a importância dos valores humanos e da lei internacional. O alinhamento acrítico com uma das partes não serve nem os interesses da paz nem a posição da UE no mundo.

Os futuros dirigentes da UE devem igualmente ter em conta as ideias que surgirão na disputa por assentos no próximo parlamento e durante os processos que levarão à constituição da nova Comissão Europeia e à eleição do novo presidente do Conselho Europeu. Temos aqui a oportunidade de pensar no futuro e de reformar o que precisa de ser revisto. As prioridades deverão ser repensadas para dar resposta às preocupações dos cidadãos e às ameaças que nos vêm da vizinhança. Neste último caso, é absolutamente vital ajudar a Ucrânia na sua defesa legítima contra a guerra de invasão russa. E reforçar, em simultâneo, a nossa capacidade de defesa perante os inimigos externos e a nossa segurança face aos agentes que servem esses inimigos no interior do espaço europeu. A Europa não é nem será uma superpotência. Por isso, deve tratar acima de tudo da sua vizinhança e da sua estabilidade interna.

Para além da defesa e da segurança, será necessário investir mais na ciência e na tecnologia, no domínio digital, na autonomia energética em rede, na aquisição de matérias-primas estratégicas e nas indústrias e sectores económicos essenciais para a salvaguarda do bem-estar e da vida dos cidadãos. A tudo isto, acrescentaria uma Europa defensora dos valores universais e da cooperação multilateral. A Agenda 2030 e os 17 Objetivos de um Desenvolvimento Sustentável continuam a ser pertinentes. São os conflitos que não fazem sentido. Consomem fortunas para semear a destruição e a morte. A construção da paz tem igualmente um preço elevado. Os factos mostram, porém, que se trata de um investimento imprescindível.

QOSHE - A Europa perante um futuro de incertezas - Victor Ângelo
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A Europa perante um futuro de incertezas

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19.04.2024

Acaba de ter lugar mais uma reunião dos líderes europeus. O objetivo seria definir o posicionamento da UE perante as rivalidades económicas que a China e os EUA têm estado a adotar em relação à Europa. A agenda incluía ainda uma análise dos desafios que a admissão de novos membros poderá acarretar, a integração dos mercados europeus de capitais e as indústrias de defesa.

Enrico Letta, primeiro-ministro de Itália em 2013-2014, preparara um documento de reflexão. Também durante a semana, um outro italiano, Mario Draghi, o antigo presidente do Banco Central Europeu e igualmente antigo primeiro-ministro do seu país (2021-2022), havia falado sobre o futuro da União. Estas duas personalidades, que se movem politicamente nas esferas do centro europeu, têm bastante credibilidade. São nomes que poderão também estar em cima da mesa quando se discutir quem irá ocupar o cargo agora preenchido por Charles Michel. Não creio, porém, que possam ter grandes hipóteses. A aposta mais realista deve concentrar-se em António Costa. Tem, logo à partida, três trunfos de peso: foi primeiro-ministro durante muitos anos, contrariamente aos dois italianos, ganhou uma enorme respeitabilidade junto dos........

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