“Capacidades humanas, desigualdade ...”
Vivemos numa época em que as desigualdades em saúde são amplamente reconhecidas como um dos maiores desafios das sociedades contemporâneas. Apesar dos avanços científicos, tecnológicos e organizacionais, persistem diferenças profundas no acesso aos cuidados, nos resultados em saúde e nas oportunidades para viver uma vida digna. A pobreza, a origem étnica, o género, a idade, a literacia em saúde ou a condição migratória continuam a influenciar quem adoece, quem recebe cuidados e quem consegue recuperar. Perante esta realidade, importa perguntar: será suficiente garantir que todos têm acesso aos mesmos serviços? Ou será necessário assegurar que cada pessoa dispõe das condições efetivas para viver a vida que valoriza? É precisamente nesta reflexão que a filósofa norte-americana Martha Nussbaum oferece um contributo particularmente relevante. Através da denominada ‘abordagem das capacidades’ (capability approach), desenvolvida em estreita colaboração intelectual com o economista e pensador Amartya Sen, Nussbaum propõe uma mudança de paradigma. Em vez de medir o desenvolvimento apenas pelo crescimento económico ou pela distribuição de recursos, Nussbaum sugere que o verdadeiro progresso deve ser avaliado pelas oportunidades reais que cada ser humano possui para desenvolver as suas capacidades fundamentais. Segundo esta perspetiva, a justiça não consiste apenas em distribuir bens de forma igual, porém, sim, em criar........
