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O Dia das Mães e a mentira da perfeição materna

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Conta uma antiga narrativa andina que, antes de existir qualquer estrada, as mulheres caminhavam carregando os filhos presos ao corpo enquanto atravessavam montanhas geladas. Não havia caminhos pavimentados, apenas pedras, vento e altitude. Diziam que a Pachamama, a mãe-terra, observava aquelas mulheres em silêncio. E que certa vez uma criança perguntou à mãe por que ela continuava andando mesmo tão cansada. A mulher respondeu apenas: “Porque quando uma mãe para, o mundo do filho também para.”

Talvez a maternidade seja isso desde sempre. Uma travessia construída enquanto se caminha.

De diferentes culturas surgem histórias parecidas. Entre povos indígenas das Américas, divindades maternas aparecem menos como rainhas idealizadas e mais como figuras que sustentam a vida em meio à dureza do mundo. Na tradição iorubá, Iemanjá é mãe das águas e também mulher ferida, exausta, atravessada por deslocamentos e perdas. Já entre povos inuítes, Sedna, a Mãe do Mar, transforma dor e abandono em força vital para alimentar comunidades inteiras.

Nenhuma dessas histórias fala de maternidade como perfeição, elas falam de mulheres que seguem abrindo passagem quando não existe estrada pronta.

No Brasil, o Dia das Mães ainda é vendido como uma espécie de estrada pavimentada. Um roteiro pronto onde toda mulher nasce destinada ao cuidado, ao amor incondicional e ao sacrifício silencioso. Flores, propagandas e comerciais insistem numa maternidade linear, doce e moralmente impecável. Mas basta olhar com mais atenção para perceber que a experiência materna quase nunca foi uma via lisa. Ela sempre........

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