menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Rio de Janeiro: a persistência do passado como projeto de poder

19 0
30.03.2026

Em artigo recente publicado no portal G1, o jornalista do Grupo Globo Octavio Guedes apresentou uma análise sobre o legado do governo Cláudio Castro. Segundo ele, desde a redemocratização, de Brizola a Witzel, nunca houve um político tão semelhante ao governador Chagas Freitas quanto Cláudio Castro.

Trata-se de um tema que me atravessa não apenas como objeto intelectual, mas também como experiência vivida. Minha infância e adolescência transcorreram no subúrbio carioca, em um período marcado pela sobreposição de regimes e práticas políticas: a ditadura militar, o chaguismo e, posteriormente, a abertura democrática. Foram tempos duros, distintos entre si, mas profundamente reveladores das estruturas de poder que ainda hoje moldam o Rio de Janeiro e, em grande medida, ajudam a compreender o Brasil contemporâneo.

Para compreender boa parte das dinâmicas políticas atuais, é indispensável revisitar o passado. O Rio de Janeiro, nesse sentido, constitui um verdadeiro laboratório histórico. Poucos espaços concentram, de forma tão intensa, experiências de autoritarismo, clientelismo, populismo e reorganização democrática. Trata-se de um território onde práticas políticas não apenas se sucedem, mas se acumulam e se sedimentam, reaparecendo sob novas roupagens, muitas vezes mais sofisticadas, mas não necessariamente mais republicanas.

A análise do jornalista do Grupo Globo vai além de uma crítica circunstancial ao governo Cláudio Castro. Ela revela a permanência de um padrão político que atravessa décadas e resiste às mudanças institucionais formais. A comparação com o período de Chagas Freitas, por ele evocada, não deve ser lida como exagero retórico. Ao contrário, trata-se de um paralelo que ilumina continuidades estruturais no uso da máquina pública como instrumento de poder, especialmente no que se refere à construção de bases políticas por meio da distribuição de favores, cargos e recursos.

Essa permanência não pode ser compreendida sem a devida atenção a três marcos históricos fundamentais que, em conjunto, contribuíram para o processo de enfraquecimento do estado do Rio de Janeiro. O primeiro deles foi a transferência da capital federal para Brasília, em 1960, que retirou da cidade do Rio de Janeiro seu protagonismo político e simbólico, afetando, posteriormente, todo o estado após a fusão de 1975. Esse movimento deslocou o centro decisório do país e esvaziou parte significativa de sua relevância institucional.

O segundo marco foi o golpe civil-militar de 1964, que instaurou uma ditadura caracterizada pela centralização do poder, pela repressão política, pela corrupção e pela reorganização das estruturas estatais segundo critérios de controle e segurança. No Rio de Janeiro, esse processo teve impactos particularmente intensos, tanto pela tradição política local quanto pela importância estratégica do estado.

O terceiro marco, frequentemente subestimado, foi a fusão entre o antigo Estado da Guanabara e o Estado do Rio de Janeiro, em 1975. Longe de representar uma reorganização administrativa natural, essa fusão foi uma imposição da ditadura militar, realizada sem consulta popular e orientada por interesses políticos claros. A medida buscava redesenhar o mapa político fluminense, diluindo forças oposicionistas e reorganizando o poder territorial de modo a favorecer o controle central.

Esses três eventos, quando analisados de forma integrada,........

© Brasil 247