Por que não votar em Flávio Bolsonaro
Em 2007, Flávio Bolsonaro subiu à tribuna da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro para defender as milícias. Pediu que não fossem estigmatizadas, atribuiu-lhes benefícios e disse que gostaria de pagar 20, 30 ou 40 reais para não ter o carro furtado na porta de casa.
A milícia cobra para oferecer “segurança”. Impõe regras, controla serviços, domina territórios. O deputado Flávio via nessa cobrança a possibilidade de proteger o próprio carro, e a milícia. Os moradores que não podem pagar conhecem o outro lado da história. Sofrem sérias e cruéis represálias. É nesse discurso, pronunciado 20 anos antes de qualquer investigação sobre Dark Horse, que começa a resposta à pergunta do título deste artigo.
Às vésperas da eleição de 4 de outubro, Flávio disputa a Presidência com chance real de vencer. As pesquisas mostram empate técnico em simulações de segundo turno com Lula. Como votar num candidato com essa trajetória política, relações e promessas que já permitem avaliar o risco de lhe entregar o poder?
A homenagem a Adriano e o gabinete de Flávio
O discurso do deputado, hoje candidato a presidente, se ajusta a outras escolhas políticas. Em 2003, Flávio apresentou uma moção de louvor ao policial Adriano da Nóbrega. Em 2005, propôs conceder-lhe a Medalha Tiradentes, maior homenagem da Alerj. Adriano recebeu a comenda quando estava preso, acusado de homicídio.
Anos depois, o Ministério Público o apontaria como chefe de milícia e do Escritório do Crime. Morreu em tiroteio em Esplanada, na Bahia, em 9 de fevereiro de 2020. A família e o advogado de Adriano alegaram “queima de arquivo” – “ele tinha muito o que falar sobre milícia, rachadinha e políticos do Rio”.
A ligação de Flávio com Adriano da Nóbrega alcançou a folha de pagamento do então deputado. Danielle Mendonça da Costa, mulher de Adriano, e Raimunda Veras Magalhães, mãe dele, ocuparam cargos no gabinete de Flávio.
Flávio sustenta que não conhecia as atividades ilícitas atribuídas a Adriano. Há, contudo, fatos que não dependem desse conhecimento: o então deputado estadual o homenageou duas vezes e empregou duas pessoas de sua família.
Foi nesse gabinete que surgiu a investigação das rachadinhas. Em 2020, o Ministério Público do Rio denunciou Flávio, Queiroz e outras 15 pessoas por suspeitas de peculato, lavagem de dinheiro, apropriação indébita e organização criminosa. A acusação dizia respeito ao retorno de parte dos salários pagos a assessores. Depois, decisões do STJ e do STF anularam provas; o próprio Ministério Público pediu a extinção da denúncia, que foi rejeitada e arquivada em 2022. Não houve condenação nem julgamento do mérito que tenha comprovado os crimes.
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