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Cuidar de quem cuida: Porque a bata não é uma armadura. Um artigo da rubrica Médico de Família

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21.03.2026

Ajudar os outros exige um empenhamento total, mas ninguém consegue dar o que não tem. Quando o profissional de saúde se esquece de si, a cura torna-se um fardo pesado demais.

Muitas vezes, olhamos para os médicos e enfermeiros como figuras invencíveis, imunes ao cansaço ou à doença. No imaginário comum, quem salva-vidas parece possuir uma reserva infinita de energia. Mas a verdade é mais simples e, por vezes, mais dura: por baixo da bata branca, bate um coração que também se cansa, que também sente o peso do stress e que, por vezes, chega ao limite.

Na saúde, o empenhamento em ajudar o próximo é a nossa força motriz. Contudo, esse fôlego não pode ser gasto até ao último suspiro pessoal. Se o profissional de saúde não estiver bem, a sua capacidade de prestar atenção ao detalhe — aquele pormenor que, como vimos no caso do AVC, faz toda a diferença — acaba por ficar nublada pelo cansaço.

Os sinais de que é preciso parar

Tal como ensinamos a regra dos “3 F” para detetar uma emergência cerebral, o cuidador também precisa de aprender a ler os sinais de que o seu próprio “motor” está a falhar:

O cansaço que não passa: quando uma noite de sono já não chega para recuperar a energia e o dia de trabalho começa com um sentimento de derrota;

O distanciamento: quando o doente deixa de ser uma pessoa com uma história e passa a ser apenas um processo ou um sintoma a despachar;

A sensação de vazio: quando aquele brilho nos olhos ao ajudar alguém se apaga e o trabalho se torna puramente mecânico.

Um ato de responsabilidade, não de egoísmo

Cuidar de si próprio não é um luxo nem um ato de egoísmo. É, na verdade, uma obrigação para com os doentes. Um profissional que dorme, que se alimenta bem e que reserva tempo para a sua saúde mental é um profissional mais atento, mais humano e muito mais eficaz.

Prevenir o esgotamento na saúde é tão vital como prevenir uma doença crónica. Passa por saber dizer “agora preciso de parar”, por procurar apoio quando a carga emocional transborda e por não ignorar os próprios avisos do corpo.

No final do dia, para podermos salvar vidas, precisamos de garantir que a nossa não se perde na correria do sistema. Às vezes, o gesto mais heróico que um cuidador pode fazer é, simplesmente, cuidar de si próprio.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.


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