menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Proteína: estamos a exagerar? Opinião de uma nutricionista

10 0
tuesday

Se formos ao supermercado hoje, parece que há um nutriente que passou de importante a obrigatório: a proteína.

Está em todo o lado. Iogurtes proteicos, pudins proteicos, barras proteicas, cereais proteicos — atéalimentos que nunca precisaram de “upgrade” agora aparecem com um rótulo que promete mais proteína,como se isso, por si só, fosse sinónimo de melhor. E, de repente, instalou-se quase um medo silencioso: omedo de não consumir proteína suficiente. Mas vamos colocar a pergunta certa: será que estamos mesmo em défice… ou estamos só a seguir a moda?

A proteína é, sem dúvida, essencial. Tem um papel fundamental na saciedade, na manutenção da massa muscular e em várias funções do organismo. Mas essencial não significa ilimitada.

Na prática clínica, vejo cada vez mais pessoas a fazerem um esforço quase obsessivo para incluir proteína em tudo o que comem — mesmo quando já atingiram (ou ultrapassaram) as suas necessidades diárias.

Porque alguém decidiu que “mais proteína = melhor corpo”. Spoiler: não é assim que funciona.

O corpo não transforma proteína extra em músculo só porque sim. Sem estímulo adequado — como treino de força — esse excesso não traz os benefícios que muitos imaginam.

E há outro detalhe que passa despercebido: muitos dos produtos “ricos em proteína” são, na realidade, alimentos ultraprocessados com uma boa estratégia de marketing. Têm proteína, sim — mas também têm uma lista de ingredientes que dificilmente reconheceríamos numa cozinha. Ou seja, estamos a trocar comida de verdade por versões “funcionais” que nos fazem sentir que estamos a fazer melhores escolhas… mesmo quando não estamos. Mas talvez o impacto mais silencioso seja outro.

Quando começamos a olhar para a alimentação apenas através de macros — proteína, proteína, proteína — perdemos algo essencial: o equilíbrio. Comer deixa de ser intuitivo. Deixa de ser variado. E passa a ser calculado, controlado e, muitas vezes, desnecessariamente complicado.

Isto não é um ataque à proteína. É um alerta ao exagero.

Há contextos onde aumentar a ingestão faz todo o sentido — atletas, pessoas com objetivos específicos, envelhecimento. Mas para a maioria das pessoas, uma alimentação equilibrada já cobre perfeitamente as necessidades.

Sem barras. Sem pós. Sem obsessões.

Talvez esteja na altura de descomplicar. Porque comer bem não é sobre adicionar proteína a tudo. É sobre saber quando chega.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.


© Visão