A Bola e o Monstro
“Montra” isto, “montra” aquilo: não é por acaso que se ouve tantas vezes a palavra “montra” para descrever o Mundial de Futebol. O Mundial é a grande celebração do visível. E vê-se tudo. A relva e os corpos, as lágrimas e as bandeiras, os hotéis e as comitivas, os túneis e as estatísticas e o milímetro a mais da ponta-da-chuteira-naquela-fracção-de-segundo. Até as caras são coleccionáveis. E vê-se a ilha, a casa e a mãe do guarda-redes cabo-verdiano Vozinha, que gosta de telenovelas e lá lhe arranjaram maneira de ir aos Estados Unidos ver o filho jogar.
O Mundial é esta máquina tão poderosa de aparição que nem a mãe do guarda-redes do Chaves é deixada em sossego.
O raciocínio reflexo diria: mas isso é fantástico. Mas o que o raciocínio reflexo não tem em conta é que não se trata bem de visibilidade, mas de excesso de visibilidade. O excesso de visibilidade desfigura. E a transparência, ao contrário........
