O regresso dos casos e casinhos. Opinião de Filipe Luís
Os exames são como as vidas humanas: uma prova não classificada, tal como uma morte, já é de lamentar. Mas o número de 0,1% de provas não classificadas, ou “suspensas”, o que corresponderia a 300 casos, números avançados, no fim de semana, pelo Ministério da Educação, uma espécie de demonstração de que tudo estava sob controlo, não tem paralelo, por exemplo, no Japão, em três décadas, com 0% de provas não classificadas. Um número como 0,01%, ou seja, 30 provas, já exigiria um inquérito ou uma auditoria. Um único aluno afetado pelo problema já estaria em pé de desigualdade com todos os outros. Mas a forma como se relativizam os números desagradáveis – e os falhanços – também é demonstrativa de como (não) funciona o País. Perante baixas expectativas, cumprir os mínimos passa a ser um feito digno de registo. Luís Montenegro pensa que está a escrever um livro de autoajuda: “Nós arriscamos, e se arriscamos podemos falhar, mas é preferível arriscar.” Só que um Governo não é um laboratório e os portugueses não são cobaias. Se o Governo comete um erro, deve, número um, esperar as respetivas críticas, para não falar do escrutínio da imprensa e da oposição, e, número dois, reconhecer o erro, deixar de persistir nele ou emendá-lo. No entanto, este discurso dá para desculpabilizar tudo. É a inversão da definição de incompetência. O Governo falhou? Parabéns! O erro passou a ser virtuoso. Este é um admirável mundo novo, descoberto pelo primeiro-ministro. Temos de errar. O erro traz elogios. É sinal de que estamos a fazer um bom trabalho. O leitor resolveu construir uma casa em cima de uma falésia em risco de derrocada? Parabéns! Arriscou! O senhor ministro autorizou o seu motorista a pisar o pedal e atropelou mortalmente um trabalhador na autoestrada? Felicitações! Arriscou! O senhor agricultor fez uma queimada no quintal quando estavam 40........
