menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Casa Adiada — A Geração Sem Chave

16 0
30.10.2026

Por volta de 2001, sete em cada dez famílias portuguesas entre os 25 e os 34 anos viviam numa casa que lhes pertencia. Vinte anos depois, eram quatro. Poucos números dizem tanto sobre o que mudou no país e sobre o que deixou de ser possível prometer a quem trabalha.

Durante décadas, a casa própria foi mais do que uma forma de habitação. Foi um instrumento de poupança, proteção contra a incerteza e promessa de estabilidade. Comprar casa significava converter anos de trabalho em segurança que pudesse durar para além da vida profissional e, eventualmente, passar à geração seguinte.

Esse modelo organizou as expectativas de uma sociedade: trabalhar, poupar, comprar, constituir família, construir património. Nunca esteve igualmente ao alcance de todos, mas representava uma ideia de progresso suficientemente forte para orientar decisões familiares e profissionais.

A crise da habitação revela a rutura entre esse modelo e a realidade económica. A casa própria não deixou de fazer sentido; afastou-se da capacidade de compra de quem depende do rendimento do trabalho. E a alternativa — um mercado de arrendamento com dimensão, estabilidade e confiança — nunca se desenvolveu plenamente.

O problema, portanto, não é apenas o preço das casas. É o esgotamento de uma forma de organizar a segurança económica das famílias sem que outra tenha sido construída em seu lugar.

Por isso, a habitação tornou-se uma questão política tão sensível. Está em causa não apenas o acesso a um bem essencial, mas a credibilidade de uma promessa social: a de que o trabalho e o progresso permitem conquistar autonomia.

A preferência dos portugueses pela casa própria não surgiu por acaso. Num país de rendimentos modestos, com um mercado de arrendamento limitado e poucas alternativas públicas, comprar tornou-se uma forma de assegurar estabilidade. Durante grande parte do século XX, as rendas estiveram congeladas em Lisboa e no Porto; em 1974, o congelamento estendeu-se a todo o país. Só em 1990 os novos contratos passaram a ter rendas livres, enquanto muitos contratos antigos continuam protegidos. O resultado foi um mercado de arrendamento pouco atrativo para muitos proprietários e pouco previsível para quem procurava casa. A propriedade consolidou-se como resposta à escassez de alternativas. O problema foi não ter construído outras à mesma escala.

Essa herança criou um mercado de arrendamento dividido em duas realidades, uma fragmentação assinalada pela OCDE em 2026. Quem permanece num contrato antigo pode pagar uma renda relativamente baixa; quem procura casa hoje enfrenta preços moldados por uma oferta escassa e uma procura concentrada. A renda média esconde, por isso, o principal obstáculo para quem entra no mercado: o preço de entrada.

A crise financeira de 2008 contraiu fortemente a construção: no início do século concluíam-se mais de cem mil habitações por ano; na segunda metade da década de 2010, a média não chegava a dez mil. Em 2025, foram concluídas cerca de 27 mil. Entretanto, a recuperação económica, a concentração do emprego e do investimento, o turismo, a procura internacional e as mudanças demográficas aumentaram a procura sem que a oferta acompanhasse. O licenciamento, um arrendamento pouco desenvolvido e a limitada capacidade de disponibilizar habitação pública agravaram o desfasamento. O alojamento local e a compra por não residentes pesam em certas zonas, mas não explicam sozinhos a subida generalizada dos preços.

Há escolhas que não podem ser tratadas como inevitabilidades do mercado. A Constituição reconhece o direito à habitação e atribui ao Estado o dever de o promover, sem eliminar os direitos de propriedade e de iniciativa económica. O desafio é conciliar a atividade turística com a possibilidade de viver nas cidades e nos territórios durante todo o ano.

O alojamento........

© SOL