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Crescer a correr, crescer devagar

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02.03.2026

Nunca se deu tanta importância às crianças e nunca houve tanta oferta pensada para os mais pequenos. Os pais nunca estiveram tão próximos dos filhos, das suas conquistas, descobertas e cada passo novo que dão é celebrado pela família inteira como um marco. Mas, muitas vezes, a expectativa de cada novidade, das habilidades que vão adquirindo, torna-se demasiado exigente e angustiante. Há medidas para tudo: para o peso, para a altura, para rebolar, para sentar, para falar, para andar, para identificarem as cores ou fazerem contas. E quando passam dias ou meses da data apontada nos livros, a dúvida instala-se: estará tudo bem com o meu filho? Estará atrasado em relação aos colegas?

Inconscientemente, a criança entra no comboio da avaliação e competição. Cada etapa torna-se uma meta, na qual entram atividades extracurriculares, estímulos cognitivos, desporto, línguas e competências socioemocionais.

As crianças sentem-se cada vez mais cansadas. Não apenas pelos horários excessivos, mas pelo peso das expectativas dos adultos, tornando-se exímias leitoras do que se espera delas – sejam pais, educadores, professores, explicadores ou treinadores. E, muitas vezes, quanto mais conseguem corresponder, mais inquietas e insatisfeitas se sentem. 

Infelizmente, tendemos a esquecer-nos de algo extremamente simples: a criança não é apenas aquilo que faz, mas também aquilo que pensa e sente, bem como aquilo que consegue simbolizar que sente. Crescer não é só acumular competências e saberes, mas transformar experiências em pensamento, emoções em palavras e frustração em elaboração. E tudo isso demora tempo. Muito mais tempo do que a vida corrida e ansiosa dos adultos pode conceber.

Tempo lento e precioso, no qual, aos olhos dos adultos, aparentemente não acontece nada, mas que é, na realidade, tempo de construção: para brincar sem objetivos, para se aborrecer, para sonhar, para falhar, sem que cada tentativa tenha de ter um significado, ou representar uma desilusão ou preocupação.

Para acompanhar este tempo de construção demorada e invisível, é preciso adultos suficientemente seguros para tolerar que os mais pequenos não tenham de ser excecionais, não estejam sempre ocupados ou felizes, e não correspondam sempre àquilo que desejam ou esperam deles.

Talvez algumas das tarefas mais difíceis dos pais de hoje sejam tolerar, aceitar e esperar. Aceitar a imperfeição, dos filhos e a própria. Aceitar os atrasos, retrocessos ou imprevistos. Aceitar que o crescimento é um processo longo e demorado, que não tem de obedecer a regras ou padrões, muito menos ao do filho do vizinho ou da colega de trabalho.

Educar não é moldar, é acompanhar o crescimento de cada criança, independentemente das expectativas. Não é evitar a dor e a frustração como se fossem inimigos, mas dar-lhes sentido. Não é preparar o sucesso ou o futuro perfeito, mas garantir um espaço interno suficientemente seguro para que cada criança possa fazer o seu caminho com confiança e segurança, escrevendo a sua própria história.

Porque a infância não é uma corrida. Não se acelera: acompanha-se, passo a passo, com tempo, apoio e acolhimento, para que seja leve e prazerosa.


© SOL