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Modernização Aplicacional: Coragem para “mexer no que funciona”

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26.03.2026

Este é um dos maiores travões à competitividade das organizações em Portugal e na Europa. Não nos falta talento nem ambição. Falta-nos a coragem para reconhecer que o risco de modernizar é, na verdade, menor do que o risco de ficar parado.

A falsa economia de não mexer no sistema que funciona

O argumento mais comum contra a modernização é também o mais intuitivo: “se funciona, não mexas.” E, de facto, funciona – até ao dia em que deixa de funcionar, ou até ao momento em que o custo de manter se torna insustentável.

O fator que muitas organizações não contabilizam é o custo real do legacy – não se trata apenas da manutenção, mas também da dificuldade da integração com parceiros e fornecedores que operam em plataformas mais modernas. Reflete-se na lentidão com que se lançam novos produtos ou serviços, quando cada alteração exige meses de desenvolvimento e testes num ambiente frágil. Manifesta-se na exposição acrescida a riscos de segurança, já que os sistemas antigos nem sempre suportam mecanismos de proteção atuais. E traduz-se na dependência de um número cada vez mais reduzido de especialistas capazes de saber manter esse código.

Em muitas organizações, grande parte do orçamento de IT continua a ser absorvida pela manutenção dos sistemas existentes, sobrando pouco para a inovação. Neste contexto, surge frequentemente a pergunta: “porque é que não conseguimos transformar-nos digitalmente?” A resposta está no modelo atual de alocação de recursos: não é possível construir o futuro quando a maior parte permanece dedicada a sustentar o passado.

Modernizar não é reconstruir tudo

Há um equívoco que alimenta a inércia organizacional: a ideia de que modernizar significa substituir integralmente os sistemas e recomeçar a partir do zero. Não significa. Aliás, na maioria dos casos, uma abordagem big bang é a mais arriscada.

Uma modernização aplicacional sólida é incremental e estratégica. Começa por compreender o ecossistema, mapear dependências e distinguir o que é crítico. Segue-se a definição criteriosa de prioridades. Há sistemas que podem migrar para a Cloud com alterações mínimas; outros que beneficiam de uma reconfiguração arquitetural assente em microserviços e APIs, ganhando flexibilidade e capacidade de integração; e há ainda aqueles cuja substituição é aconselhável, desde que conduzida de forma faseada, permitindo a coexistência entre soluções antigas e novas durante a transição.

As ferramentas necessárias estão hoje amplamente consolidadas: containerização, arquiteturas Cloud-native, APIs abertas, plataformas low-code para processos menos críticos. A tecnologia, em si mesma, raramente constitui o principal obstáculo. O verdadeiro desafio reside na decisão de iniciar e na disciplina de manter o rumo ao longo de um programa que pode durar dois, três ou cinco anos.

O setor público como contexto mais exigente

Se no setor privado a modernização avança, ainda que com resistência, no setor público a questão assume outra dimensão. O Digital Government Index da OCDE de 2025 coloca Coreia do Sul, Austrália e Portugal entre os países líderes em transformação digital, mas sublinha que mesmo os Estados mais avançados ainda têm margem para acelerar reformas – sinal de que a modernização continua a ser um processo exigente.

Um estudo da ScienceDirect[1] sobre administração pública europeia confirma o que muitos de nós vemos no terreno: os sistemas legacy continuam a ser um dos maiores obstáculos à transformação digital dos serviços públicos. Ao mesmo tempo, análises da Deloitte2 sugerem que quase metade dos dirigentes do setor público reconhece os sistemas legacy como barreira direta à mudança.

Os ciclos de contratação pública, concebidos para assegurar transparência e equidade, tendem a ser extensos, o que nem sempre permite acompanhar a cadência de evolução tecnológica. Um processo de aquisição para modernizar um sistema central pode prolongar-se anos até à adjudicação – período em que a tecnologia pode já ter evoluído.

A ligação à soberania que muitas vezes é esquecida na equação

Há um aspeto que raramente integra este debate, mas que não deve ser esquecido: a dependência que se cria no processo. Quando uma organização moderniza os seus sistemas, está a fazer escolhas que a vão condicionar durante a próxima década – desde a plataforma Cloud adotada às linguagens utilizadas, passando pelos fornecedores escolhidos.

Se a modernização assentar exclusivamente num único hyperscaler, sem uma estratégia de portabilidade e sem a ponderação de alternativas europeias sempre que estas existam, corre-se o risco de substituir uma dependência por outra. A forma como se moderniza é, por isso, tão determinante quanto a própria decisão de modernizar.

Há ainda a dimensão do talento. O mercado europeu enfrenta uma escassez de engenheiros de software, e os perfis mais qualificados tendem a procurar contextos tecnológicos estimulantes, com ferramentas atuais e perspetivas de evolução. Nesse sentido, modernizar não é apenas uma iniciativa tecnológica – é também uma condição relevante para atrair e reter profissionais capazes de desenvolver a próxima geração de sistemas.

O custo da modernização é visível e mensurável, tornando-se mais presente na decisão. Já o custo não modernizar é difuso, cumulativo e silencioso – até ao dia em que se torna ensurdecedor. Quanto mais se adia, mais crescem a dívida técnica, a escassez de talento e a distância competitiva. Não é um problema que se resolva amanhã. Mas tem de começar a resolver-se hoje.

[1] Science Direct – The impact of legacy systems on digital transformation in European public administration: Lesson learned from a multi case analysis, January 2023 [2] Deloitte – Delivering on public service modernization, June 2025

Este artigo foi produzido pela Claranet Portugal.


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