Quando a realidade supera a ficção: o arquivo digital dos nossos segredos
Imagine uma nuvem de calor, pousada perto de uma praia tropical da Indonésia ou da Malásia. Imagine uma porta para essa nuvem… Uma porta? Sim, uma porta com uma chave, mas não essas chaves antigas de cobre ou alumínio, sujas, pesadas, que deixam cheiro nas mãos. Não. Uma chave digital: uma palavra passe, um código secreto.
Agora imagine que essa nuvem, parada sobre as águas cristalinas da praia paradisíaca contém os segredos, os desejos, os pensamentos, as histórias, as memórias, os desabafos, os desesperos, as confissões, de centenas de milhares de pessoas. Como numa biblioteca cheia de livros, de romances e fábulas, mas desta vez, com personagens verdadeiras.
Não com o Dom Quixote, a Lady Macbeth ou o Dorian Gray… Não. Um nuvem-biblioteca carregada com os segredos e confidências do seu melhor amigo, da sua namorada, do seu filho, da minha irmã, do amigo de infância. Ao lado da nuvem dos segredos e histórias, um turista americano reformado com excesso de peso joga candy crash enquanto bebe uma piña colada, com os dedinhos dos pés peludos e gorduchos mergulhados nas águas tépidas da piscina do resort. Um ruído esquisito perturba-lhe o descanso. Será da nuvem? A segredar aqueles segredos todos?
Mas chega de realidade. Vamos à ficção.
Há 20 anos, estávamos em 2006 — o ano em que Saddam Hussein foi executado, depois de uma longa busca pelas armas de destruição maciça que justificaram a invasão dos EUA; em que a Rússia cortou o fornecimento de gás natural à Ucrânia; e em que pela primeira vez em 50 anos nevou em Lisboa. Se nos dissessem há 20 anos, que hoje poderíamos carregar no nosso bolso uma entidade semi-mágica com o mesmo peso de um........
