menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Tempo de vésperas

16 0
yesterday

Talvez seja porque acabei recentemente de ler A Década Fabulosa – Fazer pela Vida em Portugal nos anos 90, um igualmente fabuloso livro de Pedro Boucherie Mendes, que se farta de nos brindar com inigualáveis retratos de época, mas a verdade é que, em vez de nostálgico, tenho andado algo contemplativo relativamente ao passado e ao futuro a que ele nos conduziu.

Em Setembro de 1992, o meu pai apresentou-se à nova professora que ia ter no 3.º ano, para cuja sala entrei ainda com escassos 6 anos de idade, depois de ter saltado um ano curricular, afirmando-lhe, depois de ter a certeza de que eu estava a ouvir, que se tivesse de me «acertar o passo» o podia fazer livremente e que não seria por isso que a professora teria um pai a incomodá-la. Eu sabia o que «acertar o passo» significava numa casa de militar: se o meu passo, por alguma razão que me fosse exclusivamente atribuível, se «desacertasse», estava dada carta branca para levar um par de lambadas e, assim, ficar com o passo devidamente acertado. Certo é que as hierarquias ali ficaram bem definidas, tal como os papéis que estavam guardado à professora e a mim. Ela detinha a autoridade, zelava pela ordem e pela disciplina, recebia o poder de me ensinar, e eu ficava com o direito de aprender e estudar e com o dever de respeitar essa autoridade e de apresentar bons resultados, numa coexistência pacífica de direitos e deveres, liberdade e autoridade, enfim, ordem. Naturalmente,........

© Observador