As mulheres não estão cegas, estão fartas
As mulheres não estão cegas. Cegueira é o que menos existe. O que há, hoje, é uma nitidez brutal: jornadas longas, casas que continuam a funcionar à custa de trabalho invisível, relações onde a maturidade emocional é opcional para uns e obrigatória para outras. Mesmo assim, insiste‑se na narrativa conveniente de que “as mulheres andam cegas”, “não querem compromissos”, “exigem demais”. É uma desculpa confortável: transforma uma mudança estrutural num capricho feminino. Mas o país real desmente essa fantasia todos os dias.
Durante décadas, repetiu‑se que “as mulheres mudaram e os homens não acompanharam”. A frase tornou‑se slogan, mas raramente se assume o que ela implica: as mulheres avançaram porque lhes foi exigido; muitos homens ficaram onde estavam porque o modelo social continuou a protegê‑los. Em 1991, pouco mais de 105 mil mulheres frequentavam o ensino superior. Hoje são quase 250 mil. Tornaram‑se maioria nas universidades há mais de vinte anos e lideram em todos os níveis de formação. A autonomia feminina não é ideologia, é estatística.
Eu própria sou exemplo disso. Casei tarde, fui mãe perto dos 40, construí a minha........
